Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço.

Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz d’alma d’aquelles.

Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma. Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se visse.

Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar. Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore, namorar as nuvens e ouvir os passaros.

—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos melhores amigos, que o pae tinha?

—O tio Simões vae rir-se...

—Dize sempre, anda.

—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa:

«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o corpo mais que o vestido?

«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]»