—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar quebranto!
—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora de saude.
—Quem a Felicia?
—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse roupa de francezes?
Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella algaravia.
Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar de reza, ou em festas da freguezia.
—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.