O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre; deitam-lhe a foice e fica por terra.
Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera, dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu ia esperando sem tentar os longes.
Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos, trabalha elle para sustentar os outros.
Assim poderia eu ser; mas não bastava.
Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher, sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo, que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade, depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:
—Vês? É assim que um homem sabe amar.
E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado. Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.
Agueda desconhecia-o e pasmava.
—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal, exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.
Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente: