N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a guerra da Russia.
Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.
Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este mesmo facto.
Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo gellado.
Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte, queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.
A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte. Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.
Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e conventos.
Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real, que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda, se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.
Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos, indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia, mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.
Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim embevecido.