—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.

Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se, de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.

Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.

V

Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos, e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não satisfazia.

A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca, confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao céo, accudiu-me ao pensamento.

—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação, e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos depois sobre o que temos que fazer.

—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.