VII

O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido, e que por muito tempo vae abalando o espaço.

Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente manifestação.

Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia muito escuro.

O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma creança. Não parecia d’este mundo.

Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada, volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia do velho.

Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.

Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.

Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.

Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.