Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.

Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.

Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.

Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?

Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?

Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes a esquece depois?

São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por isso deixam de existir.

Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou ainda.

Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de um amor eterno.