Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho, quando raramente o illuminava.

Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas primeiras eras do mundo.

Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.

Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.

Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o sentimento.

Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não a physionomia.

Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.

Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar a sua propriedade, á custa de tão pouco.

Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura palpitasse em peito de mulher.