Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem essas recordações.

Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.

Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.

Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.

Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram, todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.

Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.

Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar. Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.

Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.

Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.

Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.