Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns visinhos, que os acompanhavam.

E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que vigiára o somno de Manoel.

Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.

Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares. Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica, pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel, recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que renascia agora mais valente e duradoira.

Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio. Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.

Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.

Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas, que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do pasto.

—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.

—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que me perdoou o meu crime.

—Ainda pensa em semelhante coisa?