De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle
Enviou logo El-Rei cartas de percebimentos de guerra por todo o reino, com declaração de querer por desobediencia e deslealdade do Infante D. Pedro ir contra elle, e assim mandou poer outras cartas publicas de perdão geral para todolos humiziados, que por quaesquer casos andassem fóra do reino, se n'esta ida contra o Infante o viessem servir, e assim se fizeram outras de editos porque mandava a todalas pessoas que eram com o Infante de qualquer estado e condicção que fossem, que a certas horas sob pena do caso maior se partissem logo d'elle, e d'estas algumas se pozeram nas praças publicas de Santarem, e outras haviam de ser por notarios publicadas em Coimbra onde o Infante era, e os primeiros que para isso foram ordenados cometeram o caminho, mas com receio não o seguiram e se tornaram, em cujo lugar foi logo ordenado por El-Rei e enveado a Coimbra Lourenço Abril, seu escrivão da camara, homem mancebo e de bom entender, e como quer que no caminho fosse das guardas do Infante impedido, houve porém de chegar a elle com sua licença e prazer, e tanta pressa se deu para a destruição do Infante, que o duque desapareceu de seu arraial em Coja, bespora de Ramos como atrás fica, e estes editos chegaram ao Infante em Coimbra bespora de Pascoa. O qual depois que foi e viu as cartas que Lourenço Abril sobr'isso levou, lhe disse:
«Lourenço Abril, dizei a El-Rei meu Senhor, que eu só tomo e retenho em mim esta sua provisão, e que não hei por seu serviço e minha honra publicar-se em tal tempo. Não por não querer que em seus reinos e fóra d'elles se cumpram e obedeçam inteiramente seus mandados; porque saiba que eu sou um dos braços mais fortes que tem para lhe ajudar a manter e cumprir sua vontade e justiça. Mas porque estes procedimentos são de sua ira contra mim, eu apello d'elle contra mim agora mal informado, para elle mesmo de mim verdadeiramente e como deve depois bem informado».
E com esta resposta, e com outras palavras a estas conformes se tornou Lourenço Abril a El-Rei, que logo começou de fazer mercê a quem lh'a pedia dos bens e officios dos que eram com o Infante.
CAPITULO CVIII
Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre o Tejo e Odiana
Estes dias com todalas torvações e necessidades do tempo, o Condestabre filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e não seria assi sem seu mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das villas d'Elvas e de Marvão, contra o qual fizeram tambem a El-Rei suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liança e amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que estava então na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como fronteiro mór.
E davam fama pelo reino para mais indinação do povo, que o Infante D. Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear do reino, e assi lançar n'elle grandes pedidos, e outras muitas opressões se o mais tempo regera.
E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira não tinha força nem disposição para n'ella manter cerco nem esperar afronta, aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que comsigo tinha, se passou a Marvão, onde confiando na bondade e segurança da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e esforço de seu coração o inclinava, consirando que não sómente á sua honra não cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia muito danar, lhe disseram:
«Senhor, estas maginações de defensão em que vos vemos, ou de esperardes no campo esta gente que vem, são por agora escusadas; porque a defesa d'armas e homens que tendes é nada em comparação dos que vem sobre vós, se cuidaes dar-lhe praça, e tambem para quem soes, e para o sangue de que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes cerco, quanto mais tão desesperado de socorro como sabeis que este seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condição que vós e com tanto poder a que não podesseis resistir, em especial vindo com nome d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e não cumprir sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o serviço d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda cada dia, pelo qual nosso conselho é, que logo vos passeis aqui a Valença, que é do Mestre d'Alcantara, em que ha esperança d'achardes melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a gente que as guardem e tenham por vós, com mandado vosso, que se El-Rei lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle praza que seja».