E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e avorrecer.

O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino, especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavalleiros.

CAPITULO CXI

De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que foi morrer

E o Infante depois de todos ouvir com muito tento e repouso, e lhes dar por seus conselhos muito louvor e grandes aguardecimentos, finalmente se teve com o conde d'Abranches, que seguiu sua primeira deliberação, e determinou quando melhor não podesse ser, de morrer no campo, requerendo e bradando a El-Rei por sua justiça. E para ella se começou logo de perceber, e tanta foi a fortaleza e segurança do Infante, que n'estes dias com quanto de cousas tão arduas, e tão chegadas á morte se tratava, nunca por isso leixou de ir á caça e ao monte, e ter seraus e festas com sua mulher e donzellas, assi como no tempo de mais assessego e de maior prosperidade que nunca tivera.

CAPITULO CXII

Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de morrer um quando o outro morresse

E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse:

«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»

«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»