Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua morte
El-Rei não sabendo da determinação do Infante, que era partir de Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provisões que se não podiam haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que para tal empreza lhe era necessario que não podera haver, se o Infante não sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno não podera cerca-lo, e que o mais de dano que lhe podera fazer fôra comete-lo de passagem, o que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano nem perigo.
Porém foi logo El-Rei certificado por um Lourenço Affonso, procurador de Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem, afeando o mais que pôde sua tenção, de que o duque e o conde seu filho, como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o effeito de sua esperança e desejo, que era a morte do Infante, cuja dilação a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou de sobre ser até saber da certa determição do Infante, e então mandou poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe fôra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros lugares.
O Infante dava grande pressa á sua partida, porque não passasse de cinco dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fôra certificado que El-Rei movia contra elle como se disse, e porém de dinheiro por suas muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda fallecia e não se podia haver, era conselhado para trato e serviço da gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei e peso de leaes que era então moeda do reino, e que sem mais outra letra nem figura valessem o preço d'elles. O que o Infante não quiz consentir, antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justiça, o que foi assacado mas não verdadeiro.
CAPITULO CXVII
Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve
Sendo o Infante prestes para cumprir sua opinião, fez a um domingo que eram cinco dias de Maio partir diante com sua gente ordenada D. James seu filho, que foi dormir no campo logo acerca de Coimbra, e essa noite ficou o Infante na cidade em que com grande mostrança de muita alegria mandou dançar, e fazer festas como sohia. E depois de ter suas cousas providas se foi á Sé, e a Santa Cruz, e a Santa Clara por serem casas em que tinha singular devoção, e alli com sinaes de bom christão se encomendou a Deus, e com a cara alegre e mui descarregada se despediu de sua mulher, e dos que com ella ficaram, e foi com toda sua gente dormir ao lugar da Egua, que é cabeça da comenda mór de Christus, onde seriam com elle até mil homens de cavallo, e cinco mil de pé, com muita carriagem de bois e bestas.
Com o Infante além d'outros muitos e bons cavalleiros e escudeiros, eram estas pessoas principaes: D. James seu filho, o conde d'Abranches, Aires Gomez da Silva, e seus filhos João da Silva e Fernão Tellez, Ruy da Cunha, Gonçallo d'Ataide, Pero de Lemos, Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo irmãos, e Martim Coelho, e Pedro Coelho irmãos, e Pero de d'Atayde, e João Corrêa, e Fernão Corrêa, Fernão d'Alvarez da Maya, João Peixoto, e Lopo Peixoto irmãos.
E no arrayal do Infante se levantaram duas bandeiras, uma sua, e outra de seu filho, e em ambas iam de uma parte umas letras que diziam Lealdade, e da outra Justiça e Vingança.
E ao outro dia ante que o Infante abalasse, fez ajuntar sua gente, que repartiu em capitanias, e a todos fez uma fala, cuja sustancia foi saniar a boa tenção e limpeza de sua vida «que sómente era como leal servidor d'El-Rei seu Senhor, ir pedir e conseguir ante elle justiça.» E assi em defender com razões de leal português, que se não fizessem males nem roubos, e que pagassem bem os mantimentos e cousas que tomassem. E sobre tudo encomendou aos capitães o castigo, pás, e assessego de sua gente, e principalmente que se não escandalizassem nem alevantassem por cousas que ouvissem, em caso que parecessem contradizer a suas bondades e muita lealdade.