Exclamação á morte do Infante D. Pedro
Ó inconstante fortuna, quão secreto segredo é o de tua variavel condição e semelhança de grande poder! Quem se fiará de ti, quem não haverá medo de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto gráo da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenança fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manhã por tua desordem os tornas logo pobres abatidos em semelhança de servos, para cuja prova para que são outros passados e mais antigos exemplos senão este presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado, virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D. João, Rei no mundo tão glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu braço e esforço defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu, fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora já não sómente vimos que o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedaço de panno grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com razão grandes senhores, e hoje não acha quem morto o enterre, se não servos e pessoas mui vis.
Ó enganosa fortuna ou alguma outra força oculta; porque a este descreto e mui prudente Infante cegastes seu tão claro entendimento e limpo juizo, com que não entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em que se meteo, e vós Infante D. Pedro como não apartastes com vosso siso, devoção, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradição, e a vossa vida e limpeza tão suspeitosas e contrairas; porque não tomastes a longura do tempo por cura de vossas paixões, e seguro remedio de vossos feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes agravos e injustas perseguições, causadas contra vós do odio de vossos imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos não lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir, despensareis com vossa morte paixões e trabalhos por dardes a estes vida, segurança e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era sómente viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.
E tu fortuna imiga da razão e piedade com tua crueza assi o executaste; porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paços em que vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade; vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a quem já fizera mercê, e outros por escapar suas vidas vimos ir escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue de que descendiam, em honra, abastanças e estado criara; vimos logo seus amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados, e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.
Ó mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade, onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande prudencia, e mui alto saber! Ó Divina Providencia! Ó Virtudes Celestiaes, pois com mãos não avaras os XVII annos d'este glorioso e mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeições e bondades d'alma do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem lhe não allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi conhecida, se evitara a morte e perda de um tão perfeito e innocente Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais necessario, pois não é de duvidar que sua vida fôra sempre um forte freio e certa conservação da corôa e patrimonio real de seus reinos, e sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desolução e encurtamento! Ó duque de Bragança e conde d'Ourem vosso filho; porque contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e sós capitães d'esta feia e dorosa empresa!
Não foi certamente por hereje nem máo christão; porque suas obras o aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem incorrecto nas cousas da justiça, pois n'ella sua balança sem odio nem affeição foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular provisão e muita temperança. E se alguma cousa da corôa real tomou e emlheou para ser culpado, não foi para si nem seus filhos, mas foi sómente a que a vós e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco coração e não desposto para defensão dos reinos que regeu, pois sabeis com quanto esforço, deligencia e ousadia sempre os defendeu, procurando-lhe sempre paz e justiça, e nunca guerra nem torvação, pois certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como tyranno alguma vituperada cobiça e danado desejo para reinar, segundo ao novo rei e a seu povo, para sua maior indinação fizestes entender, pois a todos foi notorio que não sómente se não achou contra elle culpa, porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar, mas ainda está claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua mui real e perfeita creação o relevam contra si de semelhantes maginações, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, cá por suas muitas virtudes e grande lealdade teve como era razão a vida, saude e estado d'El-Rei em tanta veneração e resguardo, que álém de se conhecer que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em seu coração entrara proposito tão reprovado, elle ou secreta ou artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa disposição, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados costumes, com que não podendo os máos leixar nem dos bons aprender, se fizera para si mais dino de privação que da governança e regimento de nenhum reino, cujo defeito e indisposição causara requerer-se n'estes outro novo regedor ou rei como já outras vezes se fez, mas não se póde negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e para seus reinos e vassallos, foi tão altamente criado e ensinado tão perfeitamente, que a certidão d'isso que em sua real pessoa e mui nobre coração por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta perfeição e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descanço, cujo galardão devera ser outro e não este que lhe procurastes, cá vos leixaste guiar d'odio, inveja e cobiça, com que lhe causaste a morte tão vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a bondade e justiça de Deus foi claramente offendida, elle como justo e poderoso que é, não permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e justa vingança, pelo qual sua severa justiça e profundo saber, a que nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos tão vagarosos, quiz por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vós irmãos infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e assi se fez, como d'esta triste e espantosa execução depois de muitos annos passados a praça d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus tempos e logares está mais declarado.
E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada á egreja d'Alverca, onde porentão foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades, como ao diante se dirá.
CAPITULO CXXV
Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro
O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve, homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas palavras eram graciosas, com doce orgão de dizer, e nas sentenças mui graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural, logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingança pareceu que não foi n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessaria.