CAPITULO CXXXVI

De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha D. Joanna com El-Rei D. Anrique de Castella

E no mez d'Agosto do anno de mil e quatrocentos cincoenta e quatro, estando a Rainha em Almeirim emprenhou do Principe D. João, e segundo El Rei D. Affonso affirmou, á hora de seu concebimento a Rainha trazia em um annel uma rica esmeralda, que por sua virtude especifica de guardar castidade lhe quebrou no dedo, e ella lastimando-se da pedra, El-Rei a confortou com esperança de cobrar por ella um filho, e assi foi.

E no anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco annos El-Rei se foi a Lisboa, onde a Rainha acabou com elle, assi por intercessão do Papa e d'outros Reis e Principes que sobr'isso tinham a El-Rei aficadamente requerido, como principalmente por seu amor d'ella, que com devidas exequias e cerimonias se désse ao Infante D. Pedro a sepultura que na capela d'El-Rei D. João seu padre lhe fôra apropriada, e que seus ossos fossem a ella trasladados com aquella honra e solemnidade que sem a desaventura de sua morte merecia. Para o qual da egreja d'Alverca onde seu corpo foi logo soterrado e d'onde seus ossos foram por Lopo d'Almeida levados ao Castello de Abrantes, foi ordenado que d'ali ao tempo da trasladação fossem solemnemente levados a Lisboa, e d'hi á Batalha, como adiante direi.

E aos tres dias de Maio d'este dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, em Lisboa pario a Rainha o Principe D. João, que aos oito dias logo seguintes na Sé da dita cidade foi bautizado pelo Bispo de Ceuta D. João, que depois foi Bispo da Guarda, e foi levado á pia nos braços do Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei, e acompanhado do Infante D. Anrique, e das Infantes e senhores e senhoras do reino; foram padrinhos o duque de Bragança, e D. Vasco de Tayde, prior do Crato, e madrinha D. Briatiz de Vilhena, mulher de Diogo Soarez.

E d'ahi a um mez foi por todolos tres Estados do Reino solemnemente jurado por Principe ligitimo herdeiro, e D. Joana sua irmã até então se chamou Princesa, e d'hi em diante Infante.

E as festas e prazeres que no nascimento do Principe, seu bautismo e juramento em Lisboa principalmente, e assi em todo o reino se fizeram, foram grandes e com muitas deversidades d'alegrias, que duraram por muitos dias, e em grande perfeição.

E n'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, El-Rei D. Anrique o quarto de Castella, se quitou da filha d'El-Rei D. João de Navarra seu tio que tinha por mulher, e se concertou com El-Rei D. Affonso de Portugal, que lhe deu por mulher a Infante D. Joana sua irmã, que sem dote e com os sós corregimentos de sua pessoa, casa e camara, que foram muito reaes e de gram cumprimento, a recebeu por mulher em idade de XVII annos, e foi muito honradamente levada ao extremo d'estes reinos, e d'hi levada a Castella por a condessa D. Guiomar, e por o conde da Atouguia D. Martinho seu filho, que a entregaram a El-Rei, e além das festas que em Lisboa se fizeram mui grandes, houve tambem outras e honradas justas na Landeira; porque a Rainha entrou por Elvas.

CAPITULO CXXXVII

Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha