Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este Reino do Algarve é a seguinte.
El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal, que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.
Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente, e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D. Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros, quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito conhecimento, e grande amizade.
E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e trazem, segundo atraz brevemente dice.
CAPITULO XI
Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D. Payo Correa
E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim, que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór, que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa, que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do muro da Villa até a porta, que agora dizem dos Freires, e o segundo combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram de João de Buim, e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate del-Rei.
E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar, El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal, que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.
E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que (posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo, de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.
El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e estancias, que lhe foram ordenadas.