E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação, como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos, concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de Castella, e de Lião.

E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença, respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta, se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.

Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama, e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes deve haver nos Cartorios de Castella.

E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto milhor, e com mais particularidade se declara.

CAPITULO XVI

Do falecimento del-Rei D. Affonso de Portugal, como antes de seu falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro

A este tempo chegada a era de mil duzentos setenta e oito, (1278) El-Rei Dom Affonso de Portugal sendo já velho de setenta annos, e perseguido de dores, e paixões de velhice, por descançar em alguma parte dos trabalhos, e cuidados do Reino, ao Ifante Dom Diniz seu filho, que era de dezoito annos, e não era cazado, deu-lhe Caza em Lisboa a dezaseis dias de Junho do anno sobre dito, e de seu assentamento alem doutras couzas, lhe ordenou logo mais em dinheiros quarenta mil livras de moeda antiga, que valiam a respeito dos preços, e valor do ouro, e da prata dagora dezaseis mil cruzados, porque naquella tempo, segundo é bem verificado, uma livra valia vinte soldos, e duas livras e meia faziam cincoenta soldos, que valiam um maravedi douro, que no preço, e pezo eram os maravedis douro como agora são os cruzados, e ducados.

E do dia que El-Rei deu assi Caza ao Ifante seu filho, e a nove mezes primeiros seguintes, tendo já feito em mui inteiro acordo seu solene Testamento, arrependido de seus peccados recebendo como bom Catholico, e fiel Christão todolos Sacramentos para bem de sua alma, em Lisboa a vinte dias de Março de mil e duzentos setenta e nove, (1279) acabou sua vida, e deu sua alma a Deos, em idade de setenta annos, dos quais Reino trinta e dous, e foi logo soterrado no Moesteiro de São Domingos de Lisboa, que elle novamente fez, e depois na era de mil e duzentos e oitenta e nove, foi tresladado seu corpo ao Moesteiro Dalcobaça, pela Rainha Dona Breatiz sua molher, que ficou viva, e se mandou depois enterrar com elle no dito Moesteiro Dalcobaça, onde ambos jazem.

Este Rei Dom Affonso fez de novo o dito Moesteiro de S. Domingos de Lisboa, o qual começou aos tres annos primeiros depois que foi Rei, e o acabou em déz annos, e assi fez o Moesteiro de Santa Clara de Santarem, e povorou, e fez a Villa Destremoz, e reformou, e povorou a Villa de Beja, que dos tempos dos Mouros era de todo destroida, mas não fez a torre grande do Castello, por que esta fez seu filho, El-Rei Dom Diniz, e assi deu bons foraes a muitos Lugares do seu Reino, e em umas grandes fomes, que nelle houve em seu tempo, se acha que uzou de grande piedade com seus vassalos, a que proveo com devidos mantimentos, trazidos de muitas partes de fóra do Reino á custa de suas rendas, e a penhor das ricas joias de seu tesouro, e foi o primeiro que se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e que primeiro por esta cauza poz a bordadura dos Castellos, como atraz é já dito.

DEO GRATIAS