[Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno, in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n. 253.]

[Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor, quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur. Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper. fortun. Dialog. 117.]

[Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo, de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]

Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei de Portugal

CAPITULO I

Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque

Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente, que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos, a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa, porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como disse.

Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua Coronica em soma particular estão declaradas.

CAPITULO II