No tempo, que hos ditos cazamentos antre estes Reis, e suas vistas se concordáram, foi logo acordado, e assentado pera moor firmeza do cazamento do Ifante D. Fernando com ha Infante Dona Costança, porque em algum tempo nom ouvesse causa, nem razam pera se leixar de fazer, que ElRei D. Sancho pozesse loguo, como poz em poder, e fieldade de Portugueses estas suas Cidades, Villas, e Castellos, ha saber, Badalhouce, Moura, Serpa, Caceres, Broguilhos, Acharces, Aguilar de Neiva, com tal condiçam, que se ElRei D. Sancho, e ha Rainha Dona Maria sua molher, ou aquella ha que ho Ifante D. Fernando tevesse em seu poder, nom comprissem, e fizessem fazer, ou ho mesmo Ifante aho tempo que era limitado, nom quizesse cazar com ha dita Ifante, que nestes casos hos ditos Portugueses, que hos ditos Castellos tinham, hos entreguassem loguo aho dito Rei de Portugual pera sempre de seu Reino, e Senhorio, e mais que depois do cazamento ser assi feito se ho dito Ifante D. Fernando leixasse ha Ifante Dona Costança sua molher, e lhe nom desse de suas arras des mil maravedìs douro, em que se concordaram, que neste caso tambem hos ditos Castellos de Castella se entreguassem ha Portugual.
E por esta maneira ElRei D. Diniz poz em fieldade, e poder dos Castelhanos hos Castellos, e Cidades da Guarda, e Pinhel, pera que nom dando, e entreguando ha dita Ifante aho tempo concordado, que hos perdesse, e fossem pera sempre de Castella. Mas ElRei D. Sancho ho nom comprio assi; porque desejando de desfazer ho dito cazamento procurou contra sua verdade daver hos ditos Castellos da terceria, e ho que pior foi, que hos ouve, e tomou com mortes dalguns Alcaides Portugueses, do que ElRei D. Diniz foi mui anojado, porque de sua natural, e Real condiçam nunqua se achou, que dicesse mentira, assi sentio, e lhe doeo muito quebraremlhe tam honestamera te ha prometida verdade; e porque antre elles, era tambem concordado, que de pormeio ambos concordassem, procurassem, e paguassem has despensassoens Apostoliquas, que se requeriam por serem muito parentes.
ElRei D. Diniz enviou loguo por sua parte querella aho Papa; mas ElRei D. Sancho mudou sua messagem em outra sustancia, porque enviou ha ElRei D. Felippe de França, requerendolhe huma sua filha pera ho Ifante D. Fernando, seu filho, antre hos quais ouve loguo prazer, e outorgua pera este cazamento se fazer. Ho que ElRei D. Sancho loguo fez saber ha ElRei D. Diniz sem asinar causa evidente porque ho fizera, e com esta confiança, e esforço de França, elle rompeo ha paaz, que tinha com Portugual, e mandou loguo sua frota de naos, gualés aho Alguarve, e nellas muita gente que por maar, e por terra fizeram grandes danos, assi nos Cristãos, como nos Mouros fóra daquelle Reino, de que levaram muitos cativos, e por elles de seus resguates, outra grande soma de dinheiro de Portugual, e assi entraram has gentes do Reino de Liam, e queimaram, e roubaram, e fezeram grandes danos com mortes de muitos do Reino de Portugual.
ElRei D. Diniz maravilhado destas roturas, e sem razões delRei D. Sancho, desejando todavia com elle paaz, e por nom virem ha maiores danos, rompimentos, lhe enviou por algumas vezes requerer assi ha entregua de seus Luguares, que contra direito lhe tinha tomados, como emenda dos outros danos, e perdas e tomadias que em seus Reinos vassallos, e fazendas delles contra ho assento de sua paaz tinha recebidas, e assi que comprisse ho cazamento de seu filho com ha Ifante Dona Costança como tinha assentado, sobre ho que lhe enviou por seus embaixadores, e Procuradores ho Bispo de Lixboa, e Joaõ Simaõ Meirinho moor, que na Corte delRei D. Sancho andavaõ sem algum despacho detidos.
E porque ho cazamento de França, que ElRei D. Sancho tinha por feito se desconcertou, e desesperou vendo que de necessidade lhe convinha concertarse com ElRei D. Diniz, assi no cazamento de sua filha, como em lhe fazer emenda dos males, danos passados, enviou ha elle por Embaixador D. Mauzinho Bispo de Palença, por ho qual lhe mandou dizer, que sua vontade era de todo concertarse com elle, e que pera esso enviasse seus apontamentos ahos ditos seus Embaixadores, que ainda eram em sua Corte, com hos quaes se concordariaõ como fosse razam, e ha seu contentamento. Aho que ElRei D. Diniz satisfez, mas hos ditos seus Embaixadores vendo, que ha concruzam delRei D. Sancho era de longuas, e de negações sem causa se tornaram sem duvida ha Portugual sem nhum despacho.
E no tempo destas desavenças, e guerra antre ElRei D. Sancho, e ElRei D. Diniz, ho Ifante D. Joaõ seu tio, irmãao da Rainha Dona Breatiz sua madre, e D. Joaõ Affonso Dalbuquerque, neto delRei D. Diniz, filho de Affonso Sanches, seu filho bastardo, acertouse que entraraõ ha correr terra de Çamora com muita gente, que levavam com D. Joaõ Nunes de Lara, filho que foi de D. Nuno Guonçalves de Lara, que diceram ho Bom, ho qual era desavindo delRei D. Sancho, e tendo elle cõsiguo pouquos Cavalleiros pera peleja saio, e ho esperou, e na peleja que ouveram foi delles prezo, e trasido ha Portugual ha ElRei D. Dininz, ha quem ElRei D. Sancho, pello dito Bispo de Palença enviou pedir, que ho quizesse soltar, e enviarlho, porque elle ho queria recolher, e servirsse delle, e fazerlhe honra, e merce, especialmente tornarlhe suas terras, que lhe tinha tomadas, e nom por desleal, mas porque fora sempre ha serviço, e da parte delRei D. Affonso, com que ElRei D. Sancho seu filho teve guerra, como jáa dito hee.
ElRei D. Diniz, como homem mui liberal sobre todolos Reis de seu tempo, enviou loguo com muitos Cavalleiros, e Fidalguos de sua caza, ho dito D. João Nunes ha Castella, ha que deu grandes dadivas, e fez muita merce, e D. Joaõ Nunes fiquou por vassallo delRei D. Diniz, e ha seu serviço, e ha sua boa vontade, e como homem boò, e aguardecido nunqua depois lho neguou, e por esso depois em Castella nom compriram com elle assi como lhe tinham prometido, e elle por esso se foi ha França, e de guerra tornou depois ha Castella, como aho diante direi. E tornando á Estoria ha ElRei D. Diniz, elle como vio que ElRei D. Sancho contra direito, e rezam lhe falecera de todo, e nom compria alguma cousa das muitas, que com elle concordára, bem entendo que nom queria com elle paaz, e amor, como por bem, e assesseguo de seus Reinos sempre desejara, e porém porque era Rei de grande coraçam, e que álem das perdas que recebera, ainda por estes casos recebia alguma quebra de sua grande honra, e boõ nome, determinou aparelhar loguo sua fazenda, e ho que lhe compria, e mandalo desafiar pera pubriqua guerra, e entrarlhe por sua terra, e della nom sair atée nom aver emenda, e em comprimento de todo ho que requeria, e de direito lhe era devido.
Neste tempo ante dalguma destas cousas aver efeito, morreo ElRei D. Sancho estando na Cidade de Toledo, na era de mil duzentos noventa e sinquo, (1295) sendo ainda mãcebo. Ha causa de sua morte antecipada, e sua tam pouca vida muitos ha reportaram ha sentença da Lei de Deos, e pela desobediencia, e maao trato, que com desamor fezera ha ElRei D. Affonso seu pai, como atraas se dice, ElRei D. Sancho leixou á ora de sua morte por seus testamenteiros, e tutores de seu filho à Rainha Dona Maria sua molher, e ho Ifante D. Anrique seu tio, irmãao del-Rei D. Affonso seu padre, ho qual Ifante ha este tempo fora solto da prizam em que por muitos annos jouve em Italia, quãdo prezo por Carlo Rei de Napoles em Cesilia, na batalha em que Corradino seu competidor nos ditos Reinos foi morto, em cujo favor, e ajuda ho dito Ifante viera, e ha estes encomendou em seu testamento, que comprissem com ElRei D. Diniz ho que tinha concordado, assi no cazamento dos filhos, como na entregua das Villas de Moura, e Serpa, e dos outros Luguares que ha Portugal pertenciam.
Depois do falecimento dei Rel D. Sancho, loguo ElRei D. Diniz mandou por seus messegeiros requerer ha ElRei D. Fernando, que novamente começara de Reinar, e assi à Rainha Dona Maria, e aho Ifante D. Anrique, seus tutores, que quizessem comprir hos cazamentos, e fazer ha entregua das Villas, segundo com ElRei D. Sancho seu pai estava concordado, e elle em seu testamento leixara aho tempo de sua morte. Aho que ElRei D. Fernando com acordo, e autoridade dos ditos tutores nom satisfez, segundo ElRei D. Diniz esperava, antes pelo contrairo, poendo ahos cazamentos entreposições de tempo, que tinham semelhança de denegações, e assi escuzas à entregua dos Luguares, chamandose Senhor delles em suas mesmas cartas, da reposta que enviou, de que ElRei D. Diniz se sentio mui escandalizado, e para determinadamente saber ho que por sua honra, e por sua justiça compria, tornou ha enviar ha ElRei D. Fernando João Anes Redondo, e Mem Rodrigues Rebotim, seus Cavalleiros, e pessoas principaes, hos quais estando presentes ha Rainha Dona Maria, e ho dito Ifante D. Anrique, e assi muitos Cavalleiros, pessoas principaaes do Conselho de Castella, elles pera justificaçam da causa delRei D. Diniz, e do Reino de Portugual diceram ha ElRei D. Fernando mui particularmente todalas ajudas que elle, e ElRei D. Affonso seu padre tinham feitas ha ElRei D. Sancho, e ha ElRei D. Affonso seu padre, e avoo do dito Rei D. Fernando, hos quais muitas vezes prometeram fazer entregua dos Luguares ha Portugual, mas ainda para acender mais mal com suas gentes por maar, e por terra lhe fizeram muitos danos em seus Reinos, e vassalos, sem ho quererem emendar podendo o fazer. Pello qual hos ditos Embaixadores, diceram contra ElRei D. Fernando.
Senhor estas cousas que asima relatamos tam breves, sam mais inteiramente sabidas por certas, e verdadeiras por ha Rainha vossa madre, e por estes Senhores, que aqui estam presentes, e por ellas ElRei N. Senhor se maravilhou delRei D. Sancho vosso padre poer tardança, e escuza na emenda, e satisfaçam dellas, pois eram justas, e de razam, e porque ha tençam com que esto fazia elle ho nom entrepretava ha bem, por esso em sua vida ho mandou desafiar para entrar, e pór guerra em seus Regnos, e aver emenda do que justamente pedia, e depois de seu falecimento ElRei N. Senhor por algumas vezes vos enviou roguar como ha filho, e aconselhar como amiguo, que has cousas que por ElRei vosso padre lhe eram prometidas, vós lhas quisesses comprir, e assi receberdes sua filha ha Ifante Dona Costança por vossa molher, assi como antes fora concordado, vós na reposta que lhe enviastes em luguar de lhe mandardes entreguar hos ditos Castellos, e Luguares de que era forçado, vio nella que vos chamastes delles Senhor, e por esso hee muito anojado de vós, e de quem vos aconselhou muito escandalizado, e porque este escandalo, e agravo que de vós tem, nacem de taes cousas, razões, que por sua honra, e estado nom convem passarem sem justiça, e emenda, elle por nós finalmente, vos manda dizer huma cousa, que pella esperança que de vós tinha, e pellos grandes dividos que antre vós ha lhe he mui cara de fazer, e porém hee de sua honra, e serviço aconselhado que sem trespaço ha faça ha saber, que vós daqui em diante busqueis outro amiguo que ponhais em seu luguar, porque elle quererá com suas forças, e poder trabalhar de vos penhorar pera sua entregua nos Regnos de Castella, e Liam, e que vos pera esso envia engeitar vossa amizade, e como ha imiguo desafiar, pera que vos façais prestes, porque em sua vinda nom tardará muito.