Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de Maguazella.
Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade, e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia, nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho.
E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D. Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo dice.
«Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e concelho pois eu jaa nom sei, nem posso.
Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo, filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre, e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos, perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que ha aponte.
Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo, e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera que fossem contra meu serviço.
E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi, que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal, e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes.
E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça, se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo, e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja.
E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio».
Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer, ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu irmaão em sua vida.