--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar um dia inteiro e não ter á noite que comer... É triste... muito triste... Esgotar o sangue das minhas veias, em alheio proveito, e receber, no fim da semana, um vil salario, que mal me chega ás primeiras necessidades da vida... É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades e o meu pensamento, sem outro fim que não seja o proprio aviltamento e a propria degradação... É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes a morte! mil vezes a morte...
E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre o desventurado cadaver de sua santa mãe.
A scena era realmente tão obscura, que mal poderia provocar as vistas d'esse mundo, que é louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto, desapercebida e ignorada.
No dia immediato um raio de sol, espreitando muito de soslaio pela fresta do telhado, apenas encontrára a solidão e a ruina, na mesma alcova, onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.
No cemiterio mexia-se uma porção de terra, afim de occultar aos olhos do mundo o desditoso cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.
Julio nem sequer achára uma mortalha, para envolver o corpo de sua mãe.
Rasgou a blusa n'umas poucas de tiras, e, assim auxiliado, por mais alguns farrapos, que ainda lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o corpo infectado e pestilente de sua mãe. Porque o principal effectivamente era occultar o crime d'esta grande peccadora...
Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e as tabernas continuavam sempre atulhadas de povo.
O mesmo Julio teve a coragem de transportar o cadaver para o cemiterio e de ahi lhe prestar as derradeiras homenagens.