E, todavia, ella, a canalha, é filha de Deus como nós.

E, todavia, elle, o Ninguem errante da sociedade, o anonymo sublime do universo, elle, o, trabalhador, tambem, como nós, tem intelligencia sentimento e vontade.

Quantas vezes, ao passar por uma rua escura e humida não tropeçamos nós com um d'esses desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio, que, não tendo um travesseiro, onde repousar a cabeça, nem uma bilha d'agua, onde refrigerar a sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes, vive ao acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas da noite, alentado pelo orvalho do céu e ao abrigo vil das lageas das escadas?!

E, no entretanto, este ser existe.

Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario; existe nos campos, e chama-se jornaleiro; existe nos hospitaes, e chama-se miseravel; existe nas prisões, e chama-se criminoso; existe nas rodas e nos hospicios, e chama-se engeitado; existe nas ruas e nas escadas, e chama-se maltrapilho; existe no universo, por toda a parte espalhado, e chama-se escravo.

Sim! o escravo é o leproso sem familia, a quem só é dado sentir a dôr das suas chagas. Elle, coitado! não tem casa, nem tem jardim, nem flores, nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem apenas, como um magro cão vadio, uns ossos que róe durante o dia e umas tristesas que o acompanham durante a noite.

E nada mais tem, o escravo!

O vicio é, em geral, uma triste consequencia da falta de meios. Perguntae ao pobre, porque se embriaga, á mulher porque se prostitue, e ao escravo porque se vende.

Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque me quero esquecer do sangue que vertem as minhas feridas.

Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque tenho fome.