Será verdade que o coração tambem falla?
Uma cousa é amar, outra cousa é desejar. O amor deriva do coração, foco de toda a vida humana; o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro pertence o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensação. Até aos trinta annos o amor póde dizer-se sentimento; o que, por via da regra, não succede já d'ahi por deante, em que elle se transforma n'um desejo material.
O amor depende, sobretudo, da educação; e assim póde ser maior ou menor, consoante o estado moral do individuo em que elle se manifesta.
O amor mais verdadeiro é aquelle que se não exprime. A attracção de sympathias deve dar-se naturalmente sem necessidade de expansões, que lhes viciem a puresa inicial.
O selvagem, por exemplo, ama até ao ciume. Quando não póde saciar os seus desejos, apunhala-se a si ou apunhala a amante. É que o selvagem, na sua natureza desordenada, é um diamante por lapidar.
O ciume accusa falta de confiança na mulher a que nos dedicamos, só por um inconcebivel egoismo poderemos ser arrastados a um vicio tão execrando, como abjecto.
Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem, forte, violento. Tinha ciumes della; seguia-a por toda a parte; e não raro succedia fechar-se n'um quarto, e ahi, com o retracto deante de si, chorár e chorar copiosamente.
Ora a Viscondessa era de facto uma mulher bem educada, mas soberanamente viciada pela lisonja dos homens.
Tres são de ordinario as causas do orgulho na mulher: a formosura, a riquesa e o nascimento.
A formosura, pela demasiada contemplação das proprias qualidades, gera o coquettismo; a riquesa a vaidade; o nascimento a soberba.