Ao centro, uma mesa de páu preto, caprichosamente torneada, recebia invariavelmente, todas as noites, um velho candieiro de metal amarello, comprado n'um leilão de ferros velhos.
O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem sequer se déra ao trabalho de incommodar sua mulher. Arrastou o moribundo para um quarto, cuja cama principalmente sobresahia pela alvura da roupa, e foi elle mesmo chamar um medico.
N'este comenos concluía a sr.a Felisbella a sua nocturna devoção. Ignorando tudo o que em volta d'ella se passava, pegou no candieiro, pela aza superior; e, arrastando-se com difficuldade--porque a sr.a Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se para o quarto, parando no corredor umas tres ou quatro vezes.
A ausencia do marido incommodava-a, porém, sobremaneira. Terá elle sido preso?--monologava ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a mim que algum namorico...
E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves, merceeiro.
A noite, como todos os contrastes d'este mundo, corrêra alegre para uns e triste para outros. A sr.a Felisbella dormira umas boas oito horas, ao cabo das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.
--Ó Francisco, Francisco!--gritava a pobre da mulher com toda a força dos seus pulmões.
E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da porta.
--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu elle.
A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. Não sabendo com que desculpar-se, calou-se. Porque a sr.a Felisbella--diga-se já de passagem--respeitava devéras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade entregára o coração e a vontade.