Uma trança preta, côr de azeviche, lhe cobria o cóllo de cysne. A bôcca esculpturalmente pequena, quasi se desfazia n'um beijo, ethéreo, imperceptivel, como o ar. Uns olhos verdes e profundos, como os abysmos do mar, a tornavam simultaneamente imperiosa e meiga. A pequena mão aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas e os puffs do vestido. E o pé, ai, o pé era um primor, um verdadeiro primor. Calçava de ordinario um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado a uma meia de seda, cuja transparencia nos faria logo perguntar com Alphonse Karr, onde ella collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O seio arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave e doce ondulação, symptoma evidente de uns vedados e amorosos paraisos.
Ás vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando de amazona. Um véu azul lhe encobria as feições gentis--similhantemente ao sol, que de subito se vê surprehendido por uma nuvem. Os admiradores seguiam-lhe o trote do cavallo, até que ella se perdia na sombra das estradas.
Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados aos ventos, poder-se-hia dizer uma actriz sublime, que, no ardor da tragedia, embriaga os espectadores. E era de vêl-a depois, sahir do banho, com as fórmas do corpo, exteriormente desenhadas n'um vestido de baetilha... um encanto...
Depois dos successos precedentemente narrados, a Viscondessa entrára-se n'uma mysteriosa e doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem, lhe poderá adivinhar os intimos pensamentos. Em que pensaria ella? que fatal preoccupação a distrahia constantemente?
Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se deu o triste incidente de alguns dias. O desconhecido duellista, mais que restabelecido, devora um charuto com solemne lentidão.
--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me vossa excellencia declarar-lhe tudo o que penso, tudo o que sinto e tudo o que quero. Eu--senhora Viscondessa--era um negociante de poucos recursos.--Um dia tive a fatalidade de a vêr. Segui-a, frustradamente. V. ex.a, em meio dos seus esplendores, nem sequer me notáva. Soube que havia um baile em casa da senhora Viscondessa. Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio que V. ex.a nem attentou na minha pessoa. Desgraçado de mim! Estava irremediavelmente perdido. E perdão, senhora Viscondessa! Occultei-me indiscretamente atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um punhal se me cravára no coração. Louco, estupidamente louco, arremetti contra Alfredo. Elle intimou-me a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei fazer-me observado por V. ex.a. Vendo a impossibilidade dos meus esforços, recorri a este ultimo expediente. Fui eu a victima. V. ex.a na sua generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio que humanamente podia offertar-me. Pois bem. O meu nome é Henrique, e sou eu que hoje lh'o declaro, e a sós, sem testemunhas--Amo-a, minha senhora, e amo-a muito.
Perdão, senhor Henrique,--retorquiu gravemente a Viscondessa. O sr. é meu hospede, e abusa tristemente da minha confiança. Depois da provocação feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico privilegiado do meu coração, ser-me-ia de todo impossivel ter por V. ex.a a minima sympathia...
Henrique, exasperado e colérico, aproximando-se da Viscondessa, segredou-lhe ao ouvido as seguintes palavras:
--Assim como soube amal-a, saberei tambem odial-a.
N'este comenos entrava Alfredo.