Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um louco capricho, mentindo, affirmára que partiria para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo miseravel.
Começou, então, o desalento, como um vidro moido, de consumir-lhe a, já de si, inutil existencia.
N'um momento lucido em que o espectro da fome, esqualido e magro como Satan, se lhe desenhava deante dos olhos com as cem boccas hediondas, Alfredo, a par de um suor glacialmente cortante, experimentou o que jámais e em sua vida experimentára--uma ancia de trabalho, para o qual, em verdade, nunca se sentira predisposto.
Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro e ephemero se lhe antolhou o iris da redempção sobre a terra.
Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia havia-se-lhe apagado, ao contacto de uma embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe impossivel, uma vez que do coração nada mais restava, além de uma sensação perfeitamente estupida e material: e vontade, se a tinha, quasi nem já se revelava.
Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, apenas restava uma sombra. A barba medrára a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do casaco, imprimia-lhe um aspecto singularmente triste e repugnante. Encaral-o de frente o mesmo era que tomal-o por um salteador disfarçado.
Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, no seu escriptorio, por esta desgraçada victima de uma exaggerada e dolorosa ociosidade.
--Que me quer? interrogou o negociante.
--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em nome da mulher, que ambos amámos, venho pedir-lhe um emprestimo de duzentos mil réis...
--Em nome da mulher que só eu amei e que o senhor perdeu--convido-o a retirar-se d'esta casa.