No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha—politica, commercio, industria—como que para contrastar, surgia, por outro lado, o primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.

E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos professores da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos francezes, e alguns sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de{76} lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o sr. Canovas del Castillo referiu que se chamasse Instituto livre de ensino.

Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da inspiração individual.

O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é ainda hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a rogo de sua esposa Maria Christina.

Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os principaes quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto alguns.

A escóla de pintura hespanhola resente-se extraordinariamente do catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem ver-se, entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a Annunciação de Nossa Senhora, outro, representando a Familia Sagrada, outro desenhando a Concepção, etc.; e os de Velasquez,{77} que tem um Nosso Senhor Crucificado maravilhosamente acabado, assim como um outro intitulado o Quadro dos bebedores; os de Rivera, que produziu o Martyrio de S. Bartholomeu, S. Jeronymo em oração, etc.; e os de Zurbaran sobre assumptos mysticos, e os de Goya, que realça principalmente por um retrato a cavallo de Carlos IV, etc.

A escóla florentina é, como a hespanhola, uma escola religiosa. Assim, temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a representação da Familia Sagrada, tendo S. João e o menino Jesus em attitude de se beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci, um retrato em busto de sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de Miguel Angel Buonarroti um Nosso Senhor atado á columna; e, como estes, outros de Bronsino, de Allori, de Carducei, de Vanni, etc.

Na escóla romana o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado Urbino, que possue, entre outros, A queda de Nosso{78} Senhor Jesus Christo com a cruz, conhecido pelo nome de Pasmo de Sicilia, e muitas allegorias á familia sagrada, umas conhecidas por Ecce Agnus Dei, outras pela Rosa, outras pela Perola, etc. Seguem-se-lhe Julio Romano, Sassaferrato, Barroci, etc.

Na escóla veneziana o mais importante é Piciano, que tem uns magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado ao povo, do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das Dôres e do Ecce Homo; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais alguns.

As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, bolonheza, lombarda, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda apresentam nomes como os de Corregio (lombardo), Dominiquino e Guido (bolonhezes) e Salvator Rosa (napolitano).