E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a carruagem. Entremos para a carruagem.
Da Puerta del Sol ao Prado são dois passos. Olhe a princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, pallido de rosto e expressivo no olhar?—é o general Pavia, o celebre assassino da republica em Hespanha.
Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como uma fada, é Pepa—uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas, que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de Portugal, antigo possuidor da quinta das Laranjeiras, senador e conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus gestos, o{120} que indica uma vontade firme e um caracter recto.
Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em Recoletos, entremos num d'estes circos.
Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós, que queremos patinar, recorreremos ao artificio.
A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.
O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema, que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos patinadores descripta por Alexandre Dumas no Colar da Rainha?
Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.
Dê-me o seu pé, e verá.
Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar, como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um{121} leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da lei do equilibrio.