E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado. Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu com a mesma singeleza:
«Minha senhora,
«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»
Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra brindada, ella a orphã, ella, a desdichada, ella, a meiga,{146} ella—a preciosissima joia, engastada numa sociedade de meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou sinceramente.
—Não!—dizia ella—Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu dinheiro—oh, sim!—eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.
E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:
Meu amigo,
«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o. Venha quando quizer.
«Dolores.»
Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida arrependida,{147} tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.