O artista tem no boulevard, uma formosa galeria, especialmente merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se{152} os quadros pintados. Pois o boulevard é um museu—ao vivo, já se entende.

Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo exterior e dos boulevardiers.

O boulevard é ainda mais o figurino, a moda, o chic. Quem fôr á fuente castellana, que começa na casa da moeda e termina na fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade madrilena—toilletes finissimas, aristocracia elegante e burguezia desempenada.

Foi na fuente castellana que se originou uma elegantissima paixão ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.

Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos abrasadores de uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto que elle, hoje politico illustre no seu paiz, nunca mais pôde subtrahir-se ás influencias d'aquelle dominio.{153}

A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella acceitou, e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.

Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem sabia a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O noivo, furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre o motor de similhante desordem, elle, com a maxima serenidade, procurou-o em casa, e disse-lhe expressivamente:

—Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto de contricção.

O padre ajoelhou.

—Agora levante-se, e peça perdão a Deus.