Aquelle amigo verdadeiro e fiel; aquella intelligencia robustecida á luz da profunda meditação; aquelle coração de poeta; aquella imagem continuamente açoutada pelo tumultuar de sentimentos encontrados, onde meigamente vinha transparecer a morbidez e o desalento d'uma paixão precoce,--nunca mais transpoz o limiar da casa de Bemfica, que outr'ora pisava, sentindo a vida a rejuvenecer-lhe a cada passo.

Ainda houve quem o visse, um mez depois, com as faces pallidas, os olhos cadavericos e um semblante sepulchral.

Não era passado muito tempo, quando Cecilia recebeu uma carta de seu sobrinho, concebida nos seguintes termos:

--Minha excellente tia.--Ao deixal-a em contristante e dolorosa desolação, tendo-se associado á dôr e orphandade do espirito, como unicas companheiras, que lhe restavam no areal sombrio da vida, era mais do que dever d'um filho allivial-a, quanto em si coubesse, dos transes medonhos e caprichos da sorte, por que acaba de passar o seu bondoso coração.

Porém, minha tia, se neste mundo pode haver perdão para um desgraçado, conceda-lh'o.

Já a meus pés se abre o abysmo incommensuravel do cynismo e da descrença, que dentro em pouco me ha de absorver.

Haverá muito quem me censure, chamando-me--louco!

Louco!... porque não soube abafar a palpitação febril d'um sentimento elevado e nobre!

Louco!... porque não tive a resignação, para oppôr ao marulhar tremendo das vagas da desventura!

Louco!... porque cri na sanctidade do amor; ajoelhei perante um archanjo celeste, e senti o fogo da inspiração a enroscar-se-me voluptuosamente pelos membros!