Mas quem era aquella mulher? Que vida era a sua? Que fazia ella ali?
Aquella mulher era uma d'essas creaturas, como muitas, que Deus arrojou ao mundo, para justa punição do homem, e opprobrio eterno da humanidade.
Filha de paes abastados, aquella mulher, teria sido rica, outr'ora, nimiamente formosa e sublimemente ditosa, se a fatalidade do destino, peior que a fatalidade das paixões, não tivesse vindo macular para sempre a sua reputação ephemera.
Paulina amara Alvaro ardentemente; mas o traidor, longe de sanctificar aquelle amor com uma união licita, prostituiu torpemente a victima indefesa de seus nefastos designios, sempre indifferente ás suas agonias e ás suas dôres.
Paulina aproximou-se do seu amante, com o intuito de o beijar docemente, segundo o seu costume, quando elle a arremessou brutalmente ao meio da casa:
--Afasta-te, mulher vil! Para sempre! Não me tornes a beijar! Não queiras, ainda mais, manchar a minha fronte com o teu osculo impudico e pestilente. Julgara-te uma mulher, e não passas d'uma desgraçada! Reputei-te um anjo, e és um demonio! Cri, por algum tempo, na sanctidade do teu amor, e illudi-me, illudi-me sim, vibora dolosa e maldicta!
Triste verdade!...
Ah! Ah! Ah!
Neste ponto, Alvaro soltou uma d'essas gargalhadas estridentes e medonhas, que causam horror até ao maior heróe d'este mundo. Depois caíu sobre um canapé esfarrapado e sediço, que elle herdara de seus paes, em tempos mais ditosos, e ao lado do qual existia uma mezinha tosca e ligeira, onde se accommodava invariavelmente uma botija de genebra, que elle collou aos labios, tractando de a sorver diligentemente.
Paulina, embrulhada n'um roupão rôto e velho, com as suas longas madeixas em completo desalinho, foi-se arrastando insensivelmente no pó da sua ignominia, até chegar ao pé de Alvaro, cuja mão ainda tentou beijar mais uma vez.