Por isso, mingoado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de Castro, não contando mais de trinta annos de edade, resolveu-se a tomar ordens, expiando, com o sacrificio de seus derradeiros dias, uma mocidade, no parecer de muitos, estouvada e febril, que jámais podera olvidar.

Estava elle, um dia, meditando deliciosamente, á sombra de annoso cedro, recolhendo, na sua debilitada imaginação, as sombras longinquas d'esta tragedia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando um desconhecido, eventualmente, se acercou d'aquelles sitios!

Era Alberto de Carvalhal!

Movido pela profunda tristeza, que subitamente accommettera Francisco de Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos d'aquella alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e n'aquelle seu vulto insinuante e nobre, já curvado ao peso d'uma paixão prematura, e d'um destino atroz, que lhe seccára a seiva da vida, e lhe emmurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se do logar, onde o presbytero se sentára, e prorompeu nos termos seguintes:

--Não sei se, da minha parte, haveria indiscrição, em vir quebrar-lhe este momento de goso ineffavel e placida meditação, accordando-o á triste realidade da vida?! Confio, porém, no perdão da sua generosidade.

--Bem pelo contrario, meu caro. Um amigo é sempre bemvindo, e, se uma ou outra vez nos apraz a solidão, é certo que a sua continuação nos causaria insupportavel tedio. Precisamos d'uma urna depositaria dos nossos segredos; do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer. Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os espectaculos que só a natureza nos sabe prodigalisar, e que a maioria dos homens, no meio de seu estupido orgulho, olham indifferentes.

Travada, assim, a intimidade entre estes dois corações, que á primeira vista pareciam entender-se bem; facil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que Francisco de Castro lhe narrasse circumstanciadamente os tristes episodios de alguns dos seus dias passados.

Com este alvitre pois, enlaçados pela mutua sympathia, aquelles dois amigos encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almoçado jubilosamente, Francisco de Castro, coadjuvado pelo attencioso ardor do seu companheiro, encetou o drama da sua vida com as palavras, que vão ler-se no seguinte capitulo.

III

«Foi por uma tarde serena de abril. Eu, criança ainda, dos meus 13 annos, divagava, triste e solitario pela margem graciosa do meu limpido Vouga, contemplando aquelle espectaculo de mystico enlevo, aquella hora de profundos arrôbos e de gostosa melancholia, em que o Creador mais parece fallar directamente ao coração do homem,--quando, inopinadamente, me pareceu ouvir, a poucos passos do logar onde me encontrara, o estalido rapido e secco d'um instrumento metallico. Em poucos minutos galguei um comoro, que me separava d'aquelle sitio desastroso, encontrando-me face a face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o silencio d'aquella hora para ali virem bater-se n'um duello de morte. Quiz dissuadil-os de similhante proposito: nada consegui.