Decorridos alguns annos, voltava elle a Portugal, em demazia opulento, para poder grangear quaesquer d'esses titulos ou commendas, que tão malbaratados andam por este nosso malfadado paiz. Onde elle conseguira tão rapida transformação, isso ainda hoje passa como mysterio insondavel para todos os que o conheceram outr'ora pobre e sem meios de vida. Diziam alguns que elle se associara a uma quadrilha de bandidos na America do Sul; outros affirmavam ter sido roubada aquella fortuna a um abastado proprietario, ao serviço do qual elle se conservara por muito tempo.
Em conclusão, o que se sabe ao certo é que, estando elle um dia, muito descançado, pacificamente encostado ao portal de sua casa, respirando docemente as exhalações fragrantes das mil florinhas, que, então, apenas começavam a vegetar, de subito parou junto d'elle um vulto desconhecido, sopeando galhardamente um brioso e folgasão ginete.
--É o sr. Lourenço Viegas a quem tenho a honra de fallar?--dizia o cavalleiro, dirigindo-se para elle com delicadeza e urbanidade.
--Um seu humilde servo,--replicou Lourenço, admirado.
--Pois, sr., saiba que aproveito esta occasião para vir pagar-lhe uma divida antiga, que até hoje não tenho podido satisfazer.
--Uma divida?!... A mim?! Isso ha de ser engano, forçosamente. Creio que v. s.ª nada me deve.
--Pois então saiba mais que me chamo José de Brites Lencastre Serrão, e que tinha uma unica filha chamada Beatriz, a quem um infame assassinou e roubou para sempre aos meus carinhos e affeições.
Palavras não eram ditas, e já Lourenço Viegas caía moribundo no chão com um tiro de bacamarte, que lhe varara o peito de lado a lado.
Lourenço cahiu exclamando:--Mataram-me!... Fez-se a justiça de Deus!...
Quando, algumas horas depois, accorreu a gente da terra áquelle sitio, já elle havia exhalado o ultimo suspiro.