Após alguns momentos, como vissemos que não chegava o dono da casa, saímos, promettendo voltar n'essa mesma noite.

Quando depois nos encontrámos, cá fora, ao ar livre, sem haver nenhuma pessoa que podesse espiar os nossos passos, Arthur encarou-me com um olhar furtivo, mixto de susto e alegria, perguntando-me disfarçadamente:

--Então que te parece a minha resolução? Não julgavas, talvez, que fosse tão precipitado nos meus planos; não é assim? Pois olha, eu previra tudo isso, e, todavia, não o pude dissimular. Quiz evitar todos os escolhos, que me podessem sobrevir, no decurso d'esta minha difficil peregrinação, mas cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me á Providencia de alma e coração. O futuro nos dirá o que fôr.

Estas ultimas palavras foram proferidas n'um tom severo e decisivo, e de tal modo, que julguei inutil toda e qualquer replica, que a minha amizade, porventura, podesse suggerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra pavorosa, diante da qual elle teria de recuar um dia, se a fatalidade, por acaso, porfiasse em perseguil-o. Elle, pela sua parte, fingiu nada ouvir do que eu lhe dissera, e calou-se.

N'essa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tractado, para ter logar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resolução do moço provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvil-a, acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em acceital-a como verdadeira.

O que é certo é que d'ahi a dez dias os jornaes da localidade registavam nas suas columnas o casamento de Arthur, do modo seguinte:

--«Hontem, pelas 10 horas da manhã, na egreja de Santo Ildefonso, contrairam os sagrados laços matrimoniaes o ex.mo sr. Arthur de Campos e a ex.ma sr.ª D. Mathilde de Andrade Castello Branco, menina de subidos sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-hão brevemente para Lisboa, onde irão passar a lua de mel. D'aqui mesmo lhes enviamos os nossos parabens, fazendo votos pela sua felicidade futura, e eterna união.»

O ideal de Arthur realisara-se, pois, neste mundo. N'aquelle dia tudo lhe sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu coração, cheia de galas e encantos. A sua imaginação, povoada de tudo quanto ha de mais bello e sublime, neste valle de lagrimas, nada mais enxergara além da existencia presente. O sol da sua felicidade, até então sepultado nas trevas de um desditoso porvir, surgiu emfim magestosamente no horisonte da vida, purpureado de bem vivas côres e rescendentes perfumes.

E, diga-se a verdade, n'aquelle dia, ao menos, Arthur julgou-se feliz, e muito feliz. Por entre as rosas do amor não distinguiu elle os goivos da existencia; através a pureza do seu horisonte de todo lhe fôra impossivel notar a orla sombria e fatidica. Sentiu-se deslumbrado por um não sei quê de vago e mysterioso, que o arrastava involuntariamente para um abysmo tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida regrada e habitos morigerados.

Por esta occasião memoravel foi servido um lauto banquete em casa do conselheiro F.