O mais... só Deos o sabe!...

[Á BEIRA-MAR]

Á BEIRA-MAR

Por uma tarde calmosa de estio passeava eu distrahidamente á beira-mar, sorvendo o doce aroma, que emanava das auras celeres e vaporosas, compondo milhares de prismas seductores e phantasticos, ao som lúgubre das vagas altisonantes, que se escoavam languidas por sobre a fulva, resplandecente areia,--quando, inopinadamente, vi surgir do seio do oceano um longo objecto, informe e opaco. Aproximei-me da superficie do mar, esperando que este, no seu incessante impeto, o arrojasse á praia. Effectivamente, dentro de pouco tempo, examinava nas minhas mãos uma enorme garrafa, de amplo bôjo, que, a todos os respeitos, me parecera ter sido um echo disperso de algum naufragio recente. E não me enganei, com effeito. Abri-a, com todo o cuidado, e lá encontrei o curioso manuscripto, que vou hoje reproduzir textualmente, por o julgar digno d'isso.

É a vida d'um homem audacioso, encerrada no verbo da ambição, e sanctificada no prestigio da gloria!...


É possivel, minha mãe, que tenha esquecido o seu querido Ernesto? Dar-se-ha o caso, por ventura, que haja apagado na sua memoria a imagem da loura criancinha, que a fazia sorrir tão docemente n'aquellas horas de profunda tristeza, quando, cheia de virginal ternura e temeroso receio, pranteava na solidão a morte de meu chorado, bondoso pae?...

Oh!... não, não é possivel, mil vezes não!...

Pois bem, se assim é, se ainda vives, meiga visão da minha alma, ouve pela derradeira vez as palavras de teu desditoso filho, que de certo terá deixado de existir ao tempo em que receberes estas linhas, e sanctifica a sua desventura, n'este mundo, com a prece angustiada do teu coração atribulado.

Nada mais te peço, nem tão pouco ambiciono!