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Ao penetrar na escuridão do ergastulo julgara ter encontrado o meu epitaphio, assignalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulchral, que se me antolhava n'aquelle extenso e terrivel horizonte. Illudira-me, porém, o meu juizo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e temerarias emprezas.

Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lançado as mãos a um varão de ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se me tornava facil a sahida para a rua. Recobrei alento, e não foram frustradas as minhas esperanças.

Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente ás garras da humana justiça, e com quem eu continuava ainda a nutrir relações de camaradagem,--púde aproveitar o silencio d'uma longa e tempestuosa noite de inverno para os fins a que me propunha.

Fui feliz no meu arrojado commettimento. Ás occultas consegui embarcar em um navio inglez, que se fazia de véla para a Europa.

Assim, no espaço de pouco tempo, abandonei o paiz dos meus sonhos tristemente desfolhados aos ventos do infortunio e de medonhas calamidades. E o certo é que, se não vinha tão rico, como de principio o havia imaginado, pelo menos trazia meios sufficientes para viver em Portugal, como capitalista de modesta apparencia.

Tudo isso se desfez, porém, ante a maxima desventura, que, neste instante, me aguarda terrivelmente.

A nossa embarcação jaz nas alturas da ilha de S. Vicente. O estado do mar é deveras assolador; não ha meio de resistir-lhe. Naufragio inevitavel! Estão talhadas as nossas mortalhas. Já a morte nos sorri satanicamente por entre a negra agitação do oceano. Lucta infernal! Que diabolico tufão! Meu Deus! meu Deus! Angustiadas lagrimas, sentidos suspiros, supplicas sinceras, fervorosas orações!... tudo em vão!... Não ha duvida: seremos devorados irremessivelmente pela sanha do mar! Que profundo abysmo nos espera! Como a esperança nos é ainda meigo amparo nesta hora extrema e funebre! E como estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor! Oh! Só Deus é infinitamente justo e bom! Emfim, estão lavradas as nossas sentenças! A redempção do céu, essa, só de ti a poderei supplicar, que decerto não deixarás de interceder na terra pelo descanço de teu desditoso filho. E adeus,... adeus,... para todo o sempre!... Uma sentida saudade para Therezinha, o anjo immaculado dos meus sonhos!... adeus... adeus!...


Eis o conteúdo d'este interessante manuscripto, no fim do qual estava assignado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora no Porto, aos Clerigos. Após longas e infructuosas pesquizas, consegui saber que Maria dos Anjos era fallecida, tendo instituido por universal herdeira de seus bens a Therezinha, hoje noviça no convento de Arouca. Para lá foi remettida esta preciosa reliquia, e com ella a infeliz herança de seu esperançoso noivado. Por certo não faltariam lagrimas de bem viva saudade a orvalhar aquelle extremo legado d'um coração diluido nas grandes luctas d'um amor infindo e de constante tenacidade!