Realisou-se um congresso que foi aberto pelo seguinte discurso de Strahl:

«A convicção de que a communidade, á fundação da qual vamos proceder, é destinada a extinguir a pobreza e a miseria pela base e a destruir com ella todos os desgostos e todos os crimes que devem ser considerados como uma consequencia forçada da miseria e da pobreza, essa convicção, apercebe-se não só nas palavras, senão tambem na maneira de obrar da maioria dos nossos consocios e no profundo e desinteressado enthusiasmo, segundo o qual cada um—na medida das suas forças—se tem applicado ao fim commum. Quando publicámos o nosso appêlo, eramos apenas 84; os recursos de que podiamos dispôr orçavam por 11.400 libras sterlinas; presentemente a sociedade compõe-se de 5.650 membros e o seu fundo monta a 205.620 libras sterlinas. Convêm notar que esta somma, não nos foi fornecida simplesmente pelas classes pobres que habitualmente se consideram como as unicas interessadas no problema social. E isto torna-se ainda mais evidente percorrendo a lista dos socios. Irresistivelmente, chega-se á conclusão de que a aversão e o horror, inspirados pelas actuaes condições sociaes, attingiram tambem as classes que, á primeira vista,{29} parecem aproveitar com as privações dos desherdados da fortuna. A resolução do problema social impõe-se hoje, por tal fórma, que até os ricos e os favorecidos da sorte não duvidam concorrer com alguns milhões de libras, para a fundação da nova communidade, auxiliando-nos e participando da nossa empreza. N'este facto, mais do que em qualquer outro, repousa a convicção de que a nossa obra não poderá deixar de fructificar.

«Trata-se de escolher a região onde poderemos realisar o nosso projecto. Toda e qualquer localidade europeia está naturalmente posta de parte, por rasões faceis de comprehender; a Asia, egualmente; e, em particular, devemos assignalar os pontos onde sóem acclimatar-se os emigrantes de raça caucasica, sendo facil que se estabelecessem conflictos com as organisações juridicas e sociaes de outros tempos. Na America e na Australia, os governos conceder-nos-hiam, com prazer, um territorio espaçoso, bem como a liberdade dos nossos movimentos; mas ainda ahi difficilmente poderia a nossa communidade encontrar garantia contra os ataques hostis e assegurar o repouso e a segurança, indispensaveis a um successo rapido e certo. Resta-nos a Africa, o continente mais antigo, e, sem embargo, aquelle cuja descoberta foi a mais recente. A parte central interior encontra-se ainda sem possuidor. Podemos encontrar ali, não só um espaço sem limite e um repouso assegurado, senão tambem as condições mais favoraveis, quanto ao clima e á fertilidade do sólo, desde que a escolha seja acertada. Ha paizes, a uma grande altitude, reunindo as vantagens dos tropicos{30} e dos Alpes, que aguardam uma immigração. As communicações com esses paizes montanhosos, situados no coração do continente negro, são certamente muito penosas, mas é precisamente isso de que havemos mister para principiar. Propômos pois, que se procure a nova patria, no interior da Africa equatorial. E pensamos, principalmente, no paiz das altas montanhas do Kenia. Concorda a assembléa com a escolha?»

Foi unanime o assentimento. Ouviram-se vozes que exclamavam:

«Para deante, e antes hoje do que amanhã!»

Era evidente que a maioria estava disposta a pôr-se a caminho sem mais delongas.

De novo o presidente toma a palavra para declarar que as cousas nem sempre podem marchar tão depressa, como muitas vezes se deseja. A nova patria terá primeiro de ser escolhida e conquistada, o que representa uma empresa arriscada e difficil. O caminho tem que fazer-se por entre desertos e florestas inhospitas. Não poderemos evitar os combates com as tribus selvagens e hostis, e, por isso, só nos poderão convir homens fortes e validos, e não mulheres, creanças ou velhos. Alêm d'isso, teremos que apurar os milhares de immigrantes que deverão acompanhar-nos, atravez d'aquellas regiões, e de os organisar devidamente; 200 emigrantes, entre os quaes 4 naturalistas, 3 medicos, 8 engenheiros e 4 representantes de outros ramos technicos, ricamente providos de armas, de machinas, de sementes, de mercadorias e de utensilios de viagem, formarão a vanguarda da expedição.{31}

A narração d'esta marcha até ao Kenia, constitue uma das partes mais interessantes do livro, devendo accrescentar-se que a descripção das grandiosas montanhas africanas não é obra de pura phantasia, mas é, ao contrario, extrahida das narrativas dos exploradores africanos que visitaram aquellas regiões. A expedição faz a sua primeira paragem em um valle delicioso, situado a 1:700 metros de altitude, ao sopé de um formidavel massiço do Kenia e das suas magnificas geleiras, e que se appellidará, por causa da sua belleza e da sua fertilidade, o valle do Eden. Com as provisões e os utensilios de que vão providos, podem os valentes porta-bandeiras da gloriosa caravana fazer os preparativos necessarios, para receber o principal grupo dos associados, se bem que só alguns mezes mais tarde, por occasião da chegada do comité director á base do Kenia, é que o paiz, onde refulgirá a liberdade, será baptisado com o nome de Freiland, pondo-se então, em pratica a nova organisação do trabalho, consoante os principios freilandezes.

Para todos os que se interessam pelo estudo das questões sociaes, e ainda para todos os que pensam que as modernas sociedades, desorganisadas como estão e lançadas em bases falsas, devem ser reconstruidas, segundo um principio de justiça e de moralidade, o livro do escriptor allemão é de um interesse palpitante[[1]]. Digamos tambem que o author{32} do Freiland teve a rara felicidade de despertar em muitos espiritos, pela sua maravilhosa obra, escripta em fórma de romance, o desejo ardente de fundar uma sociedade em tudo semelhante áquella que tão brilhantemente concebeu e descreveu.

Para vulgarisar e fazer a propaganda da ideia, creou e fundou a sociedade uma revista mensal, orgão dos associados:—«Freiland, organ der Freilandvereine».