Na Belgica acabam os socialistas de alcançar um enorme triumpho, pela conquista do suffragio universal que até aqui não possuiam. O belga é homem essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a necessidade de organisar as suas forças, estabeleceu as grandes cooperativas de consumo, principalmente de pão e de carvão, e logrou attrahir a si o elemento trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e pela conveniencia, que da associação economica poderia advir á sua futura existencia. E as cooperativas belgas tornaram-se assim, não só valiosos elementos de cooperação, senão poderosas e temiveis armas de combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam sempre em caixa uns tantos por cento, para as despesas da propaganda. Não raro tem succedido fazerem as cooperativas face a uma gréve, distribuindo, diariamente, aos grevistas, alguns milhares de pães.
Não póde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em França que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo, principalmente, alcançado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas é para lastimar que não seja completa a união entre{43} os differentes grupos que representam as ideias socialistas. A franca adhesão de René Goblet, A. Millerand, J. Jaurés, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe, na camara, uma situação politica innegavel.
A Petite Republique Française é hoje, na imprensa, o orgão do novo grupo. O seu redactor principal—A. Millerand—é um escriptor de raça e um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O programma por elle exposto na sessão de 16 de fevereiro de 1893, foi adoptado por quasi todos os candidatos socialistas, nas ultimas eleições: «Revisão democratica da Constituição de 1875; modificação radical e profunda, no interesse dos trabalhadores dos campos e das cidades, da nossa legislação economica e do nosso systema de imposto; acquisição para o Estado do Banco de França, das minas e dos caminhos de ferro, arrancando-os das mãos da alta finança.»
O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de Monceau les Mines, em 1882. Desde então, nunca mais houve gréve em França, em que elle não tenha posto o seu talento e as suas grandes faculdades de orador ao serviço das victimas dos patrões gananciosos e usurarios. E assim o vêmos na brecha, defendendo successivamente os mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon, e os mineiros de Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.
Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue e Culine, perseguido por{44} causa dos fusilamentos de Fourmies, de Baudin, em Bourges, e de muitos outros.
Adversario implacavel da alta finança, Millerand pronunciou, contra a renovação do privilegio do Banco de França, um dos seus mais bellos discursos, «atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual com a Republica, e que, mercê da fraqueza e da cumplicidade dos regimens anteriores, chegou á situação em que actualmente se encontra.»
E, melhor que todas as periphrases, uma citação poderá dar-nos uma ideia da sua eloquencia. A peroração do seu discurso, relativo ao privilegio do Banco de França, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de transformação universal que se opera no mundo economico, é notabilissima:
«A massa dos trabalhadores, libertada por tres revoluções, poz-se a caminho; quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario o bem estar universal. Pensa que ha contradicção{45} em que um povo seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.