[VI
A SOCIEDADE NOVA]

[A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL IMPÕE-SE.—O QUE É O COLLECTIVISMO.—O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL, E BENOIT MALON.—A LEGISLAÇÃO DIRECTA PELO POVO.—A SOCIALISAÇÃO DOS MONOPOLIOS.—HECTOR DENIS, GUILLAUME DE GREEF E EMILE DE VANDERWELDE.—A NOVA GERAÇÃO PORTUGUEZA.—JOSÉ FONTANA E SOUSA BRANDÃO.]

Já n'outro logar o dissémos: o socialismo desenvolve-se, por toda a parte, de uma maneira espantosa. Nas eleições geraes para deputados, de 1889, obteve o partido socialista, em França, 90:000 votos nas ultimas eleições de 1893, elevou-se essa votação a 500:000 votos, cabendo a Paris 226:000. Na Inglaterra, o paiz do individualismo, conseguiram os socialistas levar ao parlamento onze deputados, na eleição de 1892. A limitação das horas de trabalho e a garantia obrigatoria nos accidentes, são uma prova provada da importancia e da influencia d'esse grupo, na camara dos communs. Na Austria, e especialmente na Bohemia e na Silesia, o partido operario dispõe de uma forte organisação. Na Suissa, á frente do seu programma, inscrevem{156} os socialistas o direito ao trabalho; na Dinamarca, pela eleição de 1893, foram sete socialistas eleitos para o conselho municipal de Copenhague; em França, por duas vezes, no mez de Janeiro corrente, esteve o governo da republica ameaçado de dar a sua demissão: a primeira vez pela proposta de Paschal Grousset, o antigo communista e um pamphletario destemido, sobre a amnistia, e a segunda vez pela emenda de Jaurés, um pensador e um parlamentar distinctissimo, ácerca da conversão dos titulos da divida publica. Emfim, não ha já hoje governo ou individuo, qualquer que seja a sua posição ou fortuna, que não acompanhe ou se não interesse pela solução dos problemas sociaes. O exercito do futuro é cada vez mais numeroso. Sobre o fundo vermelho da sua bandeira, desfraldada aos ventos, destaca-se esta divisa, escripta em letras de fogo: «Emancipação de todos os opprimidos e de todos os explorados. Renovação total, pela bondade, pelo amor, pela sciencia, pela justiça e pela solidariedade.»

A todos se afigura não só possivel, senão tambem inevitavel uma revolução social.

Luiz Blanc dizia-o ha cincoenta annos, dirigindo-se á burguesia franceza.

«Deve tentar-se uma revolução social:

«1.º—Porque a actual ordem social está cheia, em demasia, de iniquidades, de miserias e de servidões, para que possa durar muito tempo;

«2.º—Porque não ha ninguem que deixe de ter interesse n'uma nova ordem social;

«3.º—Porque, emfim, esta revolução, tão necessaria,{157} é possivel e até facil de se proclamar pacificamente.»

Assim fallava o eloquente author de L'histoire de dix ans, ha meio seculo. De então para cá, os factos teem-lhe dado rasão. A transformação social impõe-se a todos os espiritos, a todos os paizes e a todos os governos, e isto explica, até certo ponto, o motivo porque o socialismo está tanto em voga e porque o perfilham e adoptam os povos modernos, não só por intermedio dos seus pensadores mais notaveis, senão tambem pelos seus representantes de classe e pelos interpretes da opinião popular.