"Mas, ainda uma vez, n'estas desgraças publicas, não é da forma politica do governo, mas do systema social, que se trata. Vemos mais uma prova d'isso no facto de que, os que receberam cheques ou commissões do Panamá, são talvez mais numerosos e mais ávidos do lado monarchico. Saibamos ver com equidade; o mal resulta da furia do ganho individual alimentado pela forma capitalista da producção e attrahido pela febre do jôgo, que n'este tempo de anarchia economica e de iniquidades sociaes, desanima o trabalho, corrompe todas as formas da troca e transforma os mercados financeiros em cavernas dos quarenta ladrões."(Une protestation motivée--Revue Socialiste n.º 96, Decembre, 1892.) Na verdade, nem a monarchia, nem a republica se compromettem com os escandalos do mundo financeiro, se os poderes constituidos não extendem sobre os criminosos a capa da misericordia, nem exercem em favor d'elles a benevolencia ou a protecção.
A França republicana teve o bom senso de não se comprometter, como succederia se cobrisse paternalmente os politicos prevaricadores. O parlamento, de todas as vezes que se tem agitado a questão, mostra sempre desejar que a luz incida sobre o escuro caso.
Mas o grande escandalo, o verdadeiro escandalo do Panamá, está no desapparecimento de mil e trezentos milhões de francos, cobrados pelo conselho de administração da companhia. Os cinco ou dez milhões, consumidos na corrupção dos homens politicos, figuram como um minimo relativamente insignificante: É isto um incidente escandaloso, mas muito secundario, no conjunto do escandalo monumental.
Como se sumiram mil e trezentos milhões de francos n'uma obra ainda apenas começada; quando, ao lançarem a idéa, os promotores do canal do Panamá asseveravam que uma somma de seiscentos milhões de francos era sufficiente para o rompimento completo do isthmo? Aqui é que está o grande escandalo, como observou Gustave Ronanet na introdução ao seu livro--La verité sur le Panamá.
E o total das emissões ainda subiu acima de mil e trezentos milhões de francos; tudo se subverteu n'esse immenso desastre. Essa somma enorme, mais de 234:000 contos da nossa moeda, ao par, representava as economias de innumeras familias da França, o producto do trabalho accumulado, durante annos e annos, por individuos das classes laboriosas, que incitados pelo principio da previdencia juntavam um pequeno capital para a velhice ou para a doença. Tudo desappareceu n'esse insondavel sorvedouro chamado Companhia do Panamá.
A avidez dos legisladores, n'esta vergonhosa e repugnante questão, ficou como uma miseravel insignificancia ao lado da perversão moral de outras classes de individuos. Charles de Lesseps, na commissão de inquerito, declarou que "não foi tanto no mundo politico como no mundo dos salões, que encontrou ávidas exigencias, que teve de dar sommas importantes, numerosas participações de garantias, para alcançar o favor dos que preparam a opinião mundana." Logo que se annunciava uma emissão, os escriptorios da companhia eram invadidos por uma multidão, principalmente da alta sociedade, que reclamava a sua inclusão no syndicato. E d'entre as pessoas do mundo elegante, quanto mais distinctos, quanto mais elevados em posição social, tanto mais avultada era a somma exigida, tanto mais consideravel a participação reclamada. Os exploradores dos capitaes do Panamá descobrem-se até no alto clero, até mesmo no Vaticano. Os parochos recommendavam aos seus freguezes a collocação das economias em acções do Panamá; as folhas clericaes faziam uma activa propaganda a favor da companhia, e até, na expressão pinturesca de um jornalista francez, au temps glorieux où les finances du Vatican valsaient sous l'archet de Mgr. Folchi, on joua sur Panamá. Um extraordinario delirio!
Depois d'este, escusado será mencionar os escandalos similares que nos ultimos tempos teem vindo a publico na Allemanha, na Italia, na Hespanha, no Brazil, por toda a parte emfim, e que representam a dessoração de um systema social chegado ao ultimo periodo da sua existencia.
III
Portugal não constitue uma excepção. A decomposição do regimen capitalista, que tem por symptomas caracteristicos o caso retumbante do Panamá na republica franceza e uma série infinita de Panamás que se desenvolveram em quasi todas as nações da Europa e America, extendeu-se até a sociedade portugueza. Observe-se a depravação a que ella chegou, desorientada por uma politica immoralissima, na qual se sacrificam os interesses nacionaes ás inconfessaveis e desvairadas conveniencias do mais sórdido egoismo. E essa depravação attingiu o seu auge no decurso da grande crise nacional por que passamos. As proporções espantosas que tomou no nosso meio a dessoração de um systema social chegado ao periodo extremo da sua existencia, são tanto mais para admirar, quanto é certo nunca ter esse regimen de feudalismo industrial, alcançado entre nós o desenvolvimento que tomou n'outros paizes egualmente contaminados.
A razão d'este phenomeno é simples.