O illustre professor da Universidade de Montpellier, prognosticando a rehabilitação do trabalho manual, como Fourier e Renan, fechou o seu brilhante discurso inaugural com estas palavras: "Sim; no dia em que o trabalho intellectual e o trabalho manual se hajam reconciliado, abraçado, desposado, terá dado o genero humano um grande passo para a felicidade, para a felicidade moral, que seguramente produzirá o sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, realizado n'um commum trabalho e n'um commum destino, e para a felicidade physica tambem, que ha de resultar da harmonia das funcções o da plenitude da vida."
V
Estamos em plena decadencia. A sociedade industrial-capitalista que se fundou sobre as ruinas da sociedade catholico-feudal, submettendo as doutrinas revolucionarias ao egoismo individualista, agonisa actualmente em decomposição espontanea. Os abusos provenientes da sua propria organização subvertem-n'a. A crise moral, caracteristica de todas as épochas de dissolução, manifesta-se no seu maior auge pela fraqueza dos caracteres, pela venalidade das consciencias, pelas torpezas de toda ordem que mancham muitos homens em evidencia, pela indifferença ou desprezo com que a maioria do publico encara os negocios do Estado e pelo utilitarismo egoista que inspira hoje quasi todos os actos humanos.
Mas a crise moral, a dissolução dos costumes publicos e privados, que caracterisa sempre os fins dos periodos historicos, é, em geral, acompanhada logo de um comêço de reacção que se manifesta no riso, na sátira, na ironia pungente, isto é, no castigo pelo ridiculo. Este comêço de reacção moral não corrige os costumes, mas pode ter consequencias salutares por apressar a decomposição espontanea e facilitar com as suas irreverencias o advento das novas doutrinas.
Quando a grandeza dos Romanos se submergiu nas orgias do imperio, Juvenal fustigou com as suas sátiras a sociedade em decadencia. Com ellas contribuiu inconscientemente para dispôr os espiritos descrentes do polytheismo á acceitação da moral christã.
No declinar do periodo catholico-feudal, quando a alma cavalheiresca foi tocada pela corrupção, Rabelais com o seu prodigioso Gargantua e Cervantes com o seu immortal Don Quixote castigaram pelo riso e pelo ridiculo os costumes dissolutos da épocha e prepararam o inicio dos tempos modernos.
A França, cabeça da civilisação Occidental, sentia o agonisar de um largo periodo historico sob as magnificencias do rei-Sol; á devassidão da côrte correspondia a miseria crescente do povo Voltaire com a sua fina ironia ateava o incendio que depois se chamou revolução. Beaumarchais lançou-lhe os ultimos combustiveis.
Mais tarde ainda, em França, a bacchanal do segundo imperio que cahiu humilhado em Sedan, encontrou a sátira dilacerante de Victor Hugo, a audacia firme de Rochefort e, sobretudo, a irreverente musica de Offenback.
Em Portugal a dissolução dos costumes publicos e privados, instigada desde 1852 pela corrupção adoptada como norma do governo, encontrou tambem a reacção do riso, do sarcasmo, do ridiculo. Durante o reinado de D. Luiz não faltaram as folhas satiricas, os pamphletos virulentos em prosa ou verso, as revistas do anno em que os homens e as cousas publicas eram cruamente achincalhados, as caricaturas com as quaes o talento do artista fixava em dois traços na memoria do povo as feições dos caricaturados, sempre em situações comicas ou burlescas. A acção dissolvente attingiu taes proporções que, ao terminar o reinado, se ergueu em grande parte da imprensa um brado energico contra a brandura dos nossos costumes.
Depois da ascenção ao throno do sr. D. Carlos, pretendeu o poder executivo reprimir com violencia a mordacidade iconoclasta, tanto do jornalismo como do theatro; e, com effeito, conseguiu cohibir alguns desmandos de linguagem ou de nudez de copia; mas o que não pôde abafar foi o espirito de reacção pelo riso, que proseguiu na sua tarefa demolidora, apontando ao publico os ridiculos da nossa épocha de decadencia e de desmoralisação. Basta citar o extraordinario poema satirico de Guerra Junqueiro--Patria.