E todavia eu sinto
Um acordar de instinto,
Um palpitar de viva claridade
Em cada cousa obscura…
O aroma d'uma flôr quem sabe se é ternura?
A noite não será phantastica saudade?
A deusa que semeia estrelas no Infinito
E corôa de lagrimas divinas
A extatica tragedia das ruinas,
Toda em versos de marmore e granito?
Misteriosamente
Sobe da terra um sonho transcendente;
Emanação de mistica tristeza,
Como o fumo d'um lar
Que tem, junto do fogo, alminhas a rezar.

Mas, ai, a Natureza,
Reservada e offendida, afasta-se de nós!
E na sua mudez arrefecida
Congela a minha voz…
Um silencio mortal separa-me de tudo!
E como a sombra tragica da vida,
Vou pelo mundo além;
Enorme espectro mudo,
Monstruosa presença de ninguem!
Vivo sósinho e triste, assujeitado
Ao meu phantasma errante e desgraçado,
Em ermos de abandono;
Ermos de Portugal,
Onde a alma do sol divaga com o outomno
N'um sempiterno idilio sepulcral.

Sou nada, e quero ser!
Quero ser tudo, e eu! Quero viver
A vida misteriosa…
Interrogo o silencio e a noite rumorosa
De sombras e segredos…
Contemplo comovido os astros e os penedos,
E fico a ouvir as fontes n'um eterno
Queixume que ergue a voz durante o negro inverno!
Passo horas a aspirar o aroma d'uma flôr;
Sombra que eu vejo em pétalas de côr
Esparsas, ondeantes,
Nas virgens claridades madrugantes.
E a pura sensação que me domina,
É qual longinqua Apparição divina
Que me seduz e afaga…
E de estrela em estrela é alma que divaga…
Quantas vezes me sento á beira d'um abismo,
Sobre escarpados blócos;
E em mim perdido scismo…
E ouço apenas cair nos tenebrosos fundos,
As lagrimas de luz que vêm dos outros mundos
E a neve do silencio em negros flócos.

Absorvo-me na noite e no misterio;
Erro, ao luar, em êrmo cemiterio,
Sob as azas geladas do nordeste;
Interrogo na vala a sombra do cipreste
Rumorosa d'um funebre desgosto,
Com gestos espectraes ás horas do sol-posto…
E n'um doido, febril deslumbramento,
Vejo-me sepultado em pensamento
E durmo, durmo, durmo a Eternidade…

Subito, acordo e volto á claridade!
Sáio da fria cova;
Uma sombra infantil cái d'esta imagem nova
Que sobre mim baixou do sol a arder…

Que alegria, meu Deus, tornar a ser!

E sinto um novo amor por tudo quanto existe!
Reso de joelhos vendo a tarde triste,
Pintada a sangue, em longes de pinhaes…
Vendo imagens de estrela em charcos de agua,
O oiro caido ao chão das arvores outomnaes
E as nevoas, frias tunicas de magua,
Vestindo outeiros nus…
Vendo o fumo de rusticas lareiras,
Onde ha velhas fiando em negras preguiceiras
O livido lençol que as ha de amortalhar,
E rezam n'uma voz de sombra: amen Jesus
E ficam-se a scismar…
Lá fóra, ouve-se uivar phantastica alcateia
E andam Bruxas a rir…
Rangem velhinhas portas,
Treme a luz da candeia,
A cinza sobe no ar, as brazas mortas
Começam a luzir…

Eu amo tudo: os ramos comovidos
Em diáfano marmore esculpidos
E esse velhinho tronco, em flôr, que renasceu
Ao sentir a impressão azul que vem do ceu…
Com que ternura beijo a luz do dia,
Que em meus ouvidos de alma é lirica harmonia…
Tenho ocultas palavras transcendentes
Para as nuvens somnambulas, dormentes,
Para a sombra nupcial e mistica d'um lirio,
Para a afflição da inercia escrita n'um rochedo
E para a Dôr que faz gritar um arvoredo
Em noites de delirio.

Mas este amor é grande soffrimento!
De que nos serve amar o que não ama?
Ser dolorosa chama,
Sobre campos de neve, errando, ao vento?
Andar a perseguir um Anjo fugitivo!

Entre turbas de mortos não ser mais
Do que um espectro vivo?
Ser doido cataclismo!
Ser desprendida folha,
Entregue aos vendavaes,
A voar, a voar em negros vôos afflictos!
Olhar seu proprio sêr como quem olha
O fundo d'um abysmo!
E querendo esconder nas sombras o seu rôsto,
Para chorar tão intimo desgosto,
Ter de invocar a noite em altos gritos!