Depois, a sua Imagem soffredôra
Regressa á Vida, veste-se de aurora;
Os seus labios sorriem para mim…
E aquelles verdes olhos cristalinos
Abrem-se radiosos e divinos,
E vejo-o então brincar no meu jardim!
Vejo-o como ele foi, como ele existe
No coração da Mãe por toda a vida!
Anjinho tutelar da nossa casa!
A divina Esperança florescida,
Brilhando além de tudo quanto é triste…
Longinquo Alivio, protectora Asa!
Mas de que serve? Eu choro sem descanço,
No meio da tristêsa indiferente
Das Cousas que têm a alma sempre ausente…
Só eu na minha dôr nunca me canço.
Ó brutêsa das Cousas! No infinito
E gélido silencio, eu ouço um grito!
Na funda solidão que me rodeia,
Um sêr apenas, tétrico, vagueia…
Quem grita? O meu espirito. E que importa?
É ele a errar no mundo solitario,
Sem principio nem fim, sem pae nem mãe!
Ó céu indiferente! Ó terra morta!
Ó grito de Jesus sobre o Calvario,
A subir no Infinito, cada vez
Mais cercado de tragica mudez,
Mas afflicto, mais alto, mais além!…
Cousas que já fizestes companhia
A este espirito meu que, em vós, se via,
Porque me abandonastes? Êrmo Vento,
Insonia do ar correndo o Firmamento,
Só vejo, em ti, loucura inanimada,
Revolta inconsciencia destruidora!
Alta estrela, na noite, incendiada,
Passarinhos do céu, cantos da aurora,
Já não palpita em vós meu coração…
Sois o silencio, a treva, a solidão.
Além de mim já nada avisto. As cousas,
Arvores, nuvens, serras pedregosas,
São penumbras que á luz do meu olhar
Se dissipam, de subito, no ar.