—Toma-a, que és o responsavel.

O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria, nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os companheiros de brinquedos e ali se quedou com a vista absorta na cal branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera, que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços. Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:

—Pois hei de ir lá vêr o que é!...

Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar! Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada, e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio, e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber! Descobriria o segredo d'esses deslumbramentos, que recamavam o negro manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira, a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.

Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz, variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no espaço como espiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita, e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis; alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta gente?! Mal se podia acreditar, pois toda a apparencia era de objectos vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande, propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica, maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no meio de lavaredas, que vomitavam raios, esfusiando de todos os lados!... Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz! talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a primeira nota d'um canto de gloria!...

IV

O pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celere ao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:

—Jesus!... A menina a arder!...

O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço... desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margarida poderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava. Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.

SEGUNDA PARTE