De tudo se fallou. O Menezes gostava de ostentar importancia—que tinha relações, que recebia muitas cartas, que em Lisboa falava com ministros. Sendo ferrenho regenerador, affirmava que o Lopo, o Barjona e o proprio Fontes o tratavam affavelmente e o recebiam em cavaqueiras intimas. Fazia gestos largos, conquistando, dirigindo, aconselhando.

—Seu tio—disse depois de conveniente preparação—era muito estimado entre nós. Esmoler, chão no tracto, bondoso, o que se chama um coração aberto. A sua piedade e religião eram proverbiaes.

O dr. Gama limpou duas lagrimas que lhe humedeceram as palpebras. Conservou-se silencioso por momentos e em tom compungido respondeu:

—Agradeço-lhe as suas palavras, que sei verdadeiras. Conheci esse coração magnanimo, esse homem antigo, esse tio admiravel! Era tal como diz, um santo, um bom.

—Julguei que nunca vira seu tio...—balbuciou timidamente.

—Durante estes ultimos vinte annos carteamo-nos sobejamente. Os nossos corações uniram-se em bellas paginas, como só elle as sabia escrever.

—Não o apreciei debaixo d'esse ponto de vista, mas sim na convivencia. Era um homem altamente religioso e não d'esses modernos que chasqueiam dos bons principios. Uma festa, aqui popularissima, á Senhora do Regaço, e que elle todos os annos fazia á sua custa, com pompa e luzimento, dera-lhe entre a nossa gente verdadeira nomeada de bom catholico. N'este ponto julgo adivinhar que v. s.ª não quebrará a tradicção...

O dr. Gama concentrou-se. Tomou aspecto reflexivo, enguliu em sêcco duas vezes.

—Se meu religioso tio—respondeu—a cuja memoria tanto devo, costumava fazer a festa da Senhora do Regaço, com pompa e luzimento, não serei eu que venha interromper essa piedosa pratica. Preciso, porém, consultar os seus livros e papeis secretos, para conhecer os precisos termos em que elle procedia, e da mesmissima fórma eu proceder tambem.

—Deixaria elle apontamento a tal respeito?— —observou o duvidoso Menezes—Isso não offenderia a sua modestia?...