Passara o perigo e com elle todas as afflicções n'aquella casa. A creança melhorou, entrando n'uma phase de saude regular. Voltaram-lhe as bellas côres do rosto. Acordou d'esta especie de lethargia com vivacidade irrequieta nos olhos e signaes de esperteza em todo o semblante, o que até ahi se lhe não tinha notado. Os paes viviam mais contentes do que nunca, pois que a filha lhes fôra restituida accrescentada em espirito e saude. Antonia é que não seria completamente da mesma opinião, visto que a sua querida menina já não era tão meiga e docil de caracter. Estava uma insupportavel traquina: tinha muito genio, um frenesi permanente lhe dominava a vida infantil, custava muito a aturar. Os nervos ainda se lhe exacerbaram e o querer tornou-se mais irascivel, quando aos sete annos veio uma segunda crise de doença. Aquelle pequenino rosto, uma oval delicada que podia conter-se na exigua mão d'uma fada; aquella bocca pequenina e vermelha como um botão de rosa; os dois olhos negros como duas amoras... tudo se transformara a ponto de parecer um rosto feio, com dentes transitoriamente deseguaes e em posição cahotica, beiços grossos da inflammação, e olhares violentos e maus. A misera Antonia passou n'este periodo amarguras desconhecidas: eram mordedellas, beliscões e pancadas com que a mimoseava esta sua filha de leite. Não socegava, nem de dia nem de noite. O seu dormir d'agora, era tão vario e turbulento, que mesmo durante o somno seguia a encarniçada batalha da vida, com gargalhadas, choros, gritos, gestos e palavras de violencia, como se estivesse acordada. A paciente ama andava constantemente a pé com um frio de lobo, para a cobrir; pois considerava, que, se a pequena lhe apanhasse algum resfriamento, ella mais do que ninguem pagaria o mal com vigilias e canceiras. Durante essas longas horas de silencio, á luz tremula da lamparina que havia no quarto commum, escutando o vento que uivava nas carvalheiras da matta e a chuva que grazinava no telhado e nas vidraças, é que a humilde serva tinha os seus desabafos deante da imagem da Virgem, que estava no oratorio:

—Mesmo uma cabrita!... Não é do meu leite... não! Isto... trocaram-m'a por outra. Se esta Nossa Senhora a levasse para a sua companhia...

Mas vinham-lhe logo idéas de arrependimento, por causa de taes arrenegos. Creara-a ao seu peito e lembrava-se com amor das consolações, que Margarida lhe dera no primeiro anno de amammentação, quando era meiga como um cachorro recem-nascido, formosa como um anho de lã branca. Não se lhe desvanecera ainda da pelle a sensação deliciosa d'aquelle contacto setinoso; no mamillo sentia ainda o sugar angelico que lhe inebriara de caricias todo o corpo e até, por vezes, a tinha adormecido com deleites (como dizem que produz a cobra manhosa, que magnetisa a teta ubere de que se sustenta ás furtadelas). Então Margarida era uma bolinha de carne, que dava gosto mostrar a toda a gente, e com quem appetecia dormir quando ella se mettia pelo corpo da ama dentro, feita n'um novello, os joelhinhos proximo do queixo, as mãosinhas agarradas na mamma com medo que lhe fugisse. Taes coisas nunca esquecem, deixam, na memoria de todo o corpo, impressão de suavidade e doçura tal, que impossivel é olvidal-as, mesmo quando surjam novos factos de natureza varia a contradizel-as. Foi por causa da primeira crise de dentição, que Margarida mammou muito para além do anno; e ainda para maior mal, Antonia continuara-lhe este vicio bem mais tempo do que se suppunha. Já o peito estava sêcco; a menina, que dormia com ella, não pegava no somno sem que tivesse a chucha na bocca e fazia-o com tanto geito e goso que a ama lhe dizia:

—Sua lambona! No dia em que se casar ainda ha de pedir d'isto... Caso é que parece correr-lhe...

E corria e ella deixava correr, pois que n'esse sugar improficuo e vicioso, a boa mulher, além de não querer contrariar Margarida, encontrava a lembrança de tantas meiguices passadas, que até lhe vinham lagrimas de contentamento. Se ao despegar a creança a bocca, por cahir em somno, ella reconhecia no bico do peito algumas gottas tiradas do seu sangue, vinham-lhe assomos de ternura, em que perdoava todas as rabinices do dia. Foram n'este viver defezo até aos cinco annos da pequenita, pois Antonia só assim encontrava meio de lhe dominar as crises de genio violento. Quando a via com o diabo no corpo, fechava-se com ella no quarto ás escuras e lá perpetravam o seu crime. Mal pensava a ama, que com tal proceder, concorria para tornar aquelles nervos (já de sua natureza vibrantes e sempre álerta para explodirem como centelhas electricas) exigentes e melindrosos, logo no começo da vida! Pois assim se formou aquelle cerebro excentrico e phantasioso: ora illuminado de alacridade estrondosa e communicativa, ora obscurecido por tristeza bronca e inconvivente; hoje da suavidade doentia da rola amorosa, ámanhã da rudeza do milhafre accommettendo com as garras e o bico. Quando presa de melancolia, procurava escuras sombras nos arvoredos da matta contigua á habitação, secrestando-se assim do convivio de todos; n'outras occasiões, com a mente jubilosa praticava innumeras temeridades—subindo a arvores e a telhados, provocando os viçosos bezerros que pasciam no prado, soltando os sanhudos cães de guarda para accommetterem pacificos transeuntes e os pedintes que vinham ao portal. Porém alegrias ou tristezas eram-lhe de pouca dura: simples fulgurações de nervos, que logo se apagavam após ephemero clarão. Appareciam frequentes e ligavam-se taes estados de sentir contrarios, mostrando, no emtanto, accentuado pendor para tudo que fosse bulha. Traziam tambem essas rebeldias de nervos caracter de contagiosas ou suggestivas para as outras creanças, que a imitavam e seguiam com enthusiasmo e obcecação, collaborando com ella em obras destruidoras contra animaes, flores ou mobilia. Esta pequena imperatriz da maldade impunha auctoritariamente a imitação do seu procedimento tyrannico e contundente. Os paes eram ricos, queriam-lhe muito e consentiam-lhe tudo; por isso encontrava sempre como victimas para esgotar a turbulencia da sua alma um velho creado paciente e tonto, um cão gottoso e indefeso que dormia juncto da lareira, um pobre jumento aposentado, que soltavam para comer nos vallados. Porém a passividade soffredora, que taes entidades lhe offereciam, mais lhe fazia referver o sangue; não se ressentirem das suas provocações tomava-o como de pouca consideração pelo seu poder; o soffrimento alheio causava-lhe regosijos de que dava mostras com animo contente e satisfeito. Quem podia, evitava-lhe o contacto; mas os creados e dependentes faziam-lhe vontades e muitas festas deante dos paes; diziam-lhe palavras de carinho e agradaveis; louvavam-lhe a docilidade de genio e animo dadivoso; porém, não poucas vezes, Margarida lhes commentou os dizeres com esta que tal rabinice:

—Tu dizes isso para a mamã te ouvir...

E D. Claudina sempre a corrigia assim:

—Bem sei que és ruim como as cobras; mas és minha filha...

II