Procuraram com vellas e tochas acesas, que arrancaram dos proprios altares, e de momento a momento a suspeita d'uma cilada dos da Maceira tomava maior vulto e lhes enchia o espirito d'uma colera crescente. A elles se juntaram o velho pae e o D. Bento d'Osma, que os creados haviam arrancado á sua paralisia, e todos chamavam por Maria e pronunciavam o seu doce nome, com ancia e carinho, atirando-o para o ventre mysterioso d'aquella negra e hostil noite de Março. Nem acordada, nem desmaiada, nem viva, nem morta a encontravam, por mais que empregassem vozes supplices ou de desespero. Agruparam-se com os parentes e o noivo de Maria, os convidados e os proprios creados. Assim todos reunidos, de tochas na mão, em volta da modesta egreja rural semelhavam multidão imprecativa de povo e não gente na ancia d'um interesse terreno. A noiva não respondera, nem ás primeiras vozes carinhosas do pae e do noivo, nem ás palavras já cheias de ira de seus irmãos. Na egreja, na sachristia, no adro não a descobriam... logo, Maria, ou voava para celesteaes alturas com as suas azas de pomba virgem, ou fugira nos braços do seu amado, o João da Cunha da Maceira.

—Com dez mil demonios, que sou capaz de trincar o coração a esse malvado, como Pedro, o Crú, fez aos carrascos de sua mulher—rugiu o velho do Corcovado, com a face incendiada em desespero.

—Rapazes!—berrou D. Bento d'Osma á multidão dos seus creados—mil cruzados novos aquelle que os pilhar.

E os irmãos de Maria, concertados em identico pensamento de vindicta e com a imagem sarcastica e victoriosa dos da Maceira deante dos olhos, clamaram:

—Os nossos cavallos depressa que não os deixaremos descançar, nem nas profundezas do inferno!

Não era muito facil encontrar os cavallos, pois quasi todos tinham fugido espavoridos. Como se poderia ir ter com elles atravez da vaga escuridão da noite, por caminhos e veredas incertas? Correram os creados, que os conheciam e a cujo chamamento e vozes os animaes estavam habituados. Partiram do adro, cada um com a sua lumieira erguida como um tropheu, chamando e assobiando, em direcções diversas. Que coisa esta de homens com vozes bradantes, armados de fogachos furando a espessa treva, a saltarem muros, e a correr pelos campos, estradas e atalhos! Seria ás arvores hirtas e silenciosas, ás estrellas sorridentes e alegres, aos espaços mudos e infinitos que elles supplicavam? Lá iam com assobios e palavras semeando a negrura torva. Ao fim d'algum tempo alguns voltaram com os animaes que buscavam e lhes haviam obedecido, reconhecendo-lhes o imperio a que estavam sujeitos. Já se tinha passado talvez mais de uma hora, quando os parceaes de D. Bento e os rapazes do Corcovado poderam montar os seus fieis cavallos, para irem no alcance dos fugitivos—duração infinita para os apaixonados corações se distancearem no goso d'uma felicidade tão rudemente conquistada.

Mas para que lado correriam os perseguidores, se os terrenos eram tão vastos, as montanhas tão silvestres e asperas? Como nortear a marcha em noite escura de breu, por veredas multiplas e perigosas? Reuniram conselho para deliberar.

—Para a Maceira?—lembraram os rapazes do Corcovado.

—Não seriam tão asnos que em tal ratoeira cahissem—observou o prudente José Pereira.

—Para o Cerdal, pois são amigos de Cesario.—opinou uma voz.