—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.

Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do facto. A luz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores, dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.

A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar. Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua alma ingenua e pura, aceitava de boamente os perigos do dia, em troca da escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir. Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar. Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados, só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes. Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.

Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.

—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.

—Mais uma legua para andar.

Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecer encontraram a primeira pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão, até que elles chegassem.

—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.

—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês p'ra onde vão?

—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.