—Acolá, vês?
—É uma capella!
—Para além da capella está a casa.
—Quanto tempo?
—Pouco tempo.
Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu, azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo do chão para os penhascos. Apparecia aqui um coelho que rebolava pela terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento, esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem, ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada aventura.
—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu cavallo.
—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para descer da egua.
—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas caçadas.
Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.